TRECHOS DE LIVROS - Literatura






“Tudo começa quando se é muito moço. Dizem-nos coisas que não são verdadeiras. Querem que acreditemos que o homem é por si mesmo uma coisa valiosa, que sua identidade é sagrada e que ele poderá ir tão longe, fazer tanto e ganhar tantos prêmios quanto puder. Para isso, só precisa de energia, coragem e honestidade.
É uma bela história. Irresistível mesmo. Especialmente para quem nada tem. Aprende-se isso desde cedo, do mesmo modo que os pais e os avós aprenderam antes. Precisam de acreditar e, por isso, acreditam.
Todo homem é livre. O seu destino lhe pertence. É isso o que ensinam. Ensinam também que é errado pôr essas coisas em dúvida.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Já que estava lá, resolvi seguir as regras do jogo. Sei quando perco a parada e tenho de aceitar as regras dos outros.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“A ideia de meu pai era que, se dependíamos dos outros para viver, estávamos na obrigação de dar aos outros o que eles quisessem. Dizia ele: 'Quando um freguês faz uma pergunta, a única resposta que podemos dar-lhe é 'Sim, cavalheiro' ou 'Sim, senhora'. Estamos servindo ao público e, se não servirmos direito, vai aparecer logo alguém para servi-lo em nosso lugar. (...) Quando o professor falar, você tem de escutar. Pouco importa que você goste dele ou não. Ele sabe alguma coisa que você não sabe e você está na escola justamente para aprender essa coisa'.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Pergunte a qualquer soldado, seu idiota. Matar é como andar com uma mulher. Só é difícil a primeira vez.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Para lhe dizer a verdade, não quero saber mais do que já sei. E o que eu sei é nada, compreendeu?”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Não vou dizer que goste de viver preso, mas também não gosto de viver solto lá fora. Não há nenhuma época em que eu tivesse prazer em viver de novo se pudesse. Não há nenhum lugar a que eu gostaria de voltar. Nunca tive tudo de uma só vez em qualquer tempo. Foi sempre uma bosta tudo, de um jeito ou de outro. E vou lhe dizer mais uma coisa: não creio que seja nisso muito diferente dos outros. Quase ninguém faz uma ideia de como está vivendo. Acabam sempre com os costados numa prisão - casamento, emprego ou seja o que for que esperam deles. Vivem presos muitos anos, fingem que gostam e até se alegram com os progressos que julgam estar fazendo, mas tudo isso é asneira. Vivem tão presos como nós. A única diferença é que nós sabemos que estamos fora de circulação e eles não sabem.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Se deixassem de fazer batatas fritas e refrigerantes, metade da população deste país morreria de fome. Sabia disso? Já ficou algum dia perto do caixa de um supermercado para ver o que é que as pessoas compram? Tudo porcaria. Compram, em geral, trinta dólares de coisas inúteis e três dólares de comida, toda ela salgada ou açucarada, artificialmente colorida e tão cheia de conservantes que poderia dar câncer em toda a população do Texas.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Era uma casa silenciosa, e eu e Enid éramos crianças caladas. Não sei bem o que nossos pais nos deram, mas não nos deram instrumentos de sobrevivência. Nem palavras, nem armas.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“— Tudo isso é tão importante para nós quanto é para você.
— Pode ser. Mas, se começarem a atirar, quem vai levar as balas sou eu.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Tempo havia de sobra. Não tinha para onde ir e nenhuma pressa de chegar lá.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“O problema é esse. Não podiam dispensar o homem porque ele era honesto. Agora, porém, estão vendo que ele é honesto demais. Não quer deixar mais ninguém roubar. (...) Virou então um perigo, uma ameaça. (...) Já começaram a dizer que ele não está bem de saúde. Quando menos se esperar, irá para o hospital. E então morrerá. Ouça bem o que eu estou dizendo: é um homem liquidado.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Fiz um trato com Tagge e não vou fugir do combinado. Mas não pensem que me embrulharam e puseram no bolso. Darei exatamente o que receber. Se tentarem comigo a força bruta, responderei com a força bruta. Podem me matar, mas não me dominar.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“É muito difícil arrancar da vida da gente pessoas que trazem boas recordações. É sempre uma operação duvidosa. Mesmo quando não é possível lembrar as coisas más, mesmo quando a gente se convence de que as coisas más nunca existiram, lá bem no fundo, quando se procura muito, há sempre um resíduo amargo.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“O que não falta no mundo são as boas intenções. O difícil é dar continuidade às boas intenções, quando é preciso escolher entre o que é conveniente e o que não é. Esse é que é o ponto crítico. Há muita gente que começa bem, mas a partir daí não comparece mais à chamada.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Você não está competindo com ninguém senão com você mesmo. Lembre-se disso e saiba que é luta de sobra. Não se compare com pessoas que, por esta ou aquela razão, conseguiram ter uma dianteira sobre você.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Se ele fosse mais velho, eu poderia tê-lo tomado como modelo e admirá-lo. Mas não se pode admirar muito um sujeito quase de nossa idade. Se o camarada é de fato muito superior, não se pode evitar uma certa mistura de inveja e de raiva de si mesmo. Fica-se assim encalhado e sem categoria, quando não se tem cuidado. É uma coisa bem difícil de superar quando se pensa muito.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Não compreendia o que é uma pessoa estar programada para o insucesso. Não sabia que é preciso muito tempo para uma pessoa se habituar ao que é bom. Há muita gente capaz de trocar a qualquer tempo o melhor por aquilo que lhe seja mais habitual. Isso vem de gerações sem conta de pessoas que tangeram bois ou burros, cavaram a terra com a enxada, racharam lenha, criaram ou plantaram para comer coisas rudes e morreram na mesma cama em que nasceram.
(...)
Mas Aplegate não compreendia isso. Ele era motivado para o alto. Não compreendia que se fosse motivado para os lados.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“'É uma coisa que tem sentido, ler', dizia ele. 'Tudo o que é belo, sensato ou importante foi escrito em algum tempo. Como pode alguém ter o desplante ou a presunção de não tomar conhecimento de tudo isso? Quem poderia ter essa coragem? A gente lê para sentir a vida, para fazer nascer dentro de si coisas de cuja existência não sabia. Todas as voltas e todos os sulcos do cérebro têm uma função própria, um potencial determinado; todas as terminações nervosas anseiam por ser estimuladas. E tudo está nos livros. Tudo. O mundo inteiro está presente neles, desde que se saiba procurar. Ler não é fugir da vida. É a própria vida e criação de vida'.
Eu gostava de ouvi-lo falar assim. E acreditava em tudo o que ele dizia. Só não podia era imitá-lo. Nunca pude ler dessa maneira. Para ler bem é preciso ficar sozinho. Mais ainda, é preciso querer ficar sozinho, calmo e em paz consigo mesmo. Nada disso é possível comigo. Fico nervoso quando não há ninguém por perto. Gosto de sentir e de ver gente na casa, na sala, cantando e falando, gosto de ver gatos e cachorros. Quando fico sozinho, nunca é porque eu quero. Ficar sozinho para mim é um castigo. Sempre foi.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Fiquei pensando em quem tomara providências para que os aborígenes fossem 'distribuídos em pequenas tribos' e não congregados numa grande tribo. E se a pessoa que escrevera o folheto e falara em 'completa liberdade pessoal' era um aborígene.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Na minha opinião, Los Angeles deve ter sido um lugar muito agradável em outros tempos, pois do contrário não seria possível que tanta gente tivesse ido para lá. A impressão que se tem é de que só os carros vivem naquela cidade e de que as pessoas só existem para cuidar deles.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Não tente calcular coisa alguma. Tudo o que era preciso pensar já foi pensado. Todos os planos já estão feitos. Tudo isso é como um trem expresso que desce uma rampa. Ou você embarca nele ou é por ele esmagado. Mas não terá qualquer espécie de meios de fazê-lo parar.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Todas as perguntas têm agora quatro ou cinco respostas. Nada está certo e nada está errado.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Esse governo não está trabalhando para nós, isso é que não. Todos os homens do governo estão trabalhando é para eles mesmos. Devem rir de nós à beça. São uns ladrões. Os pobres-diabos que estão na prisão tornam-se escoteiros e comparaçao com eles. Você pensa que eles estudam Direito para ter prejuízo? Que esperança! O diploma equivale a uma licença para roubar. Todo mundo sabe disso. E quem é eleito para o Congresso ganha uma licença para roubar em grande escala.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Sabendo que não tinha chances de vencer, comecei a planejar os detalhes de minha derrota.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Perder a guerra não me assustava tanto depois que comecei a pensar em ganhar algumas batalhas. E não era tanto de ganhar que se tratava, mas de lutar.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Brigar com um grupo é como atirar num bando de patos. É preciso escolher um pato. Quando se faz pontaria para todos, não se acerta em nenhum. E quando se luta com mais de um homem, o essencial é concentrar-se. Um de cada vez. Pouco importa o que os outros estejam fazendo com a gente. Podem levar a melhor no fim, mas até lá a gente já fez um bocado de estrago.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Você pensa que é melhor para mim não saber de nada. Mas não é. Garanto a você que não é. Nada é pior do que o que eu fico imaginando.”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Você não pode viver com alguém e viver para si ao mesmo tempo. ”
(Adam Kennedy, no livro “As Pedras do Dominó”)



“Achei a incógnita da equação. Isto de dever, todos devem mais ou menos; a questão é pagar.”
(Adolfo Caminha, no livro “Tentação”)



“Era o primeiro a reconhecer os benefícios e as incalculáveis belezas da civilização; mas também não havia negar que a título de civilização, emitia-se muita moeda falsa, muito princípio errado – muita bandalheira!”
(Adolfo Caminha, no livro “Tentação”)



“Faça de conta que comprei um bilhete. A vida é simplesmente uma loteria: questão de felicidade.”
(Adolfo Caminha, no livro “Tentação”)



“Mais vale uma esperança tarde que um desengano cedo.”
(Adolfo Caminha, no livro “Tentação”)



“ (...) o vício está no sangue do indivíduo; quando o homem tem de ser coisa ruim, o é no Rio de Janeiro, na Patagônia, em Paris... no inferno!”
(Adolfo Caminha, no livro “Tentação”)



“É um velho princípio meu que, quando você tiver excluído o impossível, o que quer que reste, embora improvável, deve ser a verdade.”
(Arthur Conan Doyle, em “As Aventuras de Sherlock Holmes”)



“Eu sei, meu caro Watson, que você compartilha do meu amor a tudo que é bizarro e fora das convenções e rotinas monótonas da vida.”
(Arthur Conan Doyle, em “As Aventuras de Sherlock Holmes”)



“Geralmente, disse Holmes, quanto mais estranha é uma coisa menos misteriosa se mostra. Os crimes comuns, sem traços característicos, é que são realmente enigmáticos, exatamente como um rosto comum é o mais difícil de identificar.”
(Arthur Conan Doyle, em “As Aventuras de Sherlock Holmes”)



“Tinha-lhe dado o apelido de Cat porque ela me lembrava uma gatinha — graciosa, independente, imperscrutável. Com aquele jeito peculiar dos gatos de estarem sempre atentos fingindo que não.”
(Arthur Maling, no livro “Dingdong - Uma Certa Conta na Suíça”)



“'Partirei quando o Senhor me convidar' — dizia minha mãe. (...) Para ela, morrer era uma maneira de aceitar um convite para ir para o Céu.”
(Arthur Maling, no livro “Dingdong - Uma Certa Conta na Suíça”)



“E eu estabeleci a verdade a meu respeito. Holly não se desfez em risos, nem me apertou a mão compungidamente. Nem me assegurou que eu seria de novo o que fora. Ela simplesmente ouviu. O que foi muito melhor.”
(Arthur Maling, no livro “Dingdong - Uma Certa Conta na Suíça”)



“— Não convidei você para vir aqui para me seduzir — disse Holly a certa altura —, mas não me importaria se o fizesse.
— Não foi para isso que eu vim — respondi —, mas tenho a firme intenção de fazê-lo.
Nenhum de nós estava falando toda a verdade, mas não tinha importância.”
(Arthur Maling, no livro “Dingdong - Uma Certa Conta na Suíça”)



“Isso era o que minha mãe entendia por realização pessoal: ser capaz de esquecer os seus próprios problemas e fazer algo pelas outras pessoas.”
(Arthur Maling, no livro “Dingdong - Uma Certa Conta na Suíça”)



“Não existem estranhos; existem apenas pessoas que ainda não tinham se encontrado.”
(Arthur Maling, no livro “Dingdong - Uma Certa Conta na Suíça”)



“Tinha voltado a sensação do inevitável que eu já sentira quando esperava a tal viagem. Era difícil enfrentar gente que nada tinha a perder.”
(Arthur Maling, no livro “Dingdong - Uma Certa Conta na Suíça”)



“nós temos desperdiçado a História como um punhado de bêbados jogando dados no fundo do banheiro masculino de um bar local. tenho vergonha de ser um membro da raça humana, mas não quero acrescentar nem mais um pingo que seja a essa vergonha.”
(Charles Bukowski, no livro “Memórias de um Velho Safado”)



“A solidão do homem completo. A solidão da grande possibilidade de escolha. A solidão de ter que fabricar os próprios instrumentos. A solidão de já ter escolhido.”
(Clarice Lispector, no livro “A Maçã no Escuro”)



“A vida é curta, mas os dias são tão longos...”
(Clarice Lispector, no livro “A Maçã no Escuro”)



“Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?”
(Clarice Lispector, no livro “A Hora da Estrela”)



“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”
(Clarice Lispector, no livro “A Hora da Estrela”)



“(...) o telefone toca (...). Atende. A voz feminina do outro lado. Quem fala? Detesta quando ligam exigindo que ela se identifique. É o cúmulo. Com quem você quer falar?, devolve. A voz bufa.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Cadê a droga da maldita chave do apartamento da mãe? Ela guardou aquela chave por tanto tempo sem nunca ter precisado dela porque sempre toca a campainha para entrar no apartamento da mãe. Não quer nenhuma surpresa quando entra no apartamento da mãe. Ainda se lembra da mãe lhe entregando a chave para uma emergência ou para o caso de precisar passar uns dias por lá. E ela dizendo que não quer aquela chave, que não quer nenhuma chave que a leve para dentro da mãe. E no final enfiando a chave no bolso com displiscência sem ligar para a mágoa que a mãe inventa e depois a jogando num canto fundo, onde?”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“(...) que se vire com a porta que a mãe não quer ou não pode abrir, que ela tem compromisso logo mais, que ela precisa trabalhar e cuidar da própria vida em vez de se preocupar com as loucuras daquela mãe que insiste em permanecer quando ela não mais a quer, aquela mãe que finge não ser tarde demais para elas.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“(...) ela sente um aperto no intestino, que é raiva da mãe e é apreensão pela mãe. Aquela mãe que insiste em seguir existindo como uma realidade para ela. Mais viva ainda porque odeia e ama aquela mãe com a mesma intensidade, embora só tente odiar.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Sua gastrite tem nome e sobrenome e um dia se chamou útero.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Como ele pode saber que ela não é filha da mãe em nenhum sentido, que ela não quer ser filha e aquela mãe não quer ser mãe e afinal o que lhe importa o que o bombeiro clichê pensa? Por que será que todo bombeiro é um clichê de bombeiro? Eles já são clichês antes de virarem bombeiros ou viram clichês para se tornarem bombeiros?”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“E ela está de novo ali, na superfície, respirando em espasmos no mais completo silêncio porque as palavras foram sempre tão deficientes para a sua dor que nem sequer se dá ao trabalho de buscá-las.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Finalmente o grito preso ali se solta. E ela sente que nunca mais o grito cessará, que aquele grito é para sempre, é um grito para toda a vida e para além da vida. Porque agora ela alcança a inteireza do horror. E gritos são coisas que não viram palavras, palavras que não podem ser ditas.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Desde criança, quando abro um livro não estou mais aqui. Não é uma metáfora para mim. Talvez o chefe com cauda de lagarto tenha razão. Eu não sei ler metáforas porque não compreendo metáforas. Para mim tudo é literal.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Não escrevo como desejaria. As frases que emergem de mim não têm qualidade. Será que contêm pelo menos uma verdade?”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Tem medo e precisa culpar alguém.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Você vai ter de se reestruturar para cuidar da sua mãe, você acha que consegue? Sim, ela consegue. Não, ela não quer. Sim, ela não tem escolha.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Caminha pelos corredores com cheiro de sus. Deve existir alguma lei que obrigue os hospitais públicos a ter paredes com pintura descascada e cadeiras quebradas, pensa.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Não, Alzira, os mortos não são assustadores. Os vivos, sim. Ah, Alzira, se você enxergasse os vivos, não teria essa sanidade estampada como um troféu na sua cara.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“O homem não sabe se é uma piada ou se a passageira é louca. Ela parabeniza a si mesma. Conseguiu calar a boca de um taxista.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Quando chega ao portão do prédio, tudo parece normal. É isso que sempre a assusta no mundo, essa capacidade do inferno de se esconder na luz. E não nas sombras, como nos iludem os escritores dos contos de horror.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Eu pensei em ligar para você, mas o síndico achou melhor que não nos metêssemos nisso. Você sabe, os moradores daqui gostam de privacidade. Sim, ela sabe. É uma das coisas que gosta naquele condomínio. Todos parecem saber da vida de todos, e em geral sabem. Ninguém pergunta nada. Não diretamente, pelo menos.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“No elevador dos fundos divide o espaço com um latão de lixo e um faxineiro, mas ele não pergunta nada. É bom quando as pessoas têm um lugar onde não cabem perguntas. A luta de classes de Marx não é uma luta, é apenas uma divisão entre os que podem fazer perguntas e os que só estão autorizados a dar respostas.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“(...) mas como a vida pode absorver tanto horror e seguir adiante? Quer ficar catatônica porque seria bom não suportar, mas ela não é assim. Ela suporta.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Minha mãe não vai sair daqui tão cedo, não é? Solta um risinho pela própria piada. A médica pode esperar até amanhã. Sabe que está selando uma imagem péssima de si mesma. Mas é bom que tenham a quem odiar. Assim não precisam odiar os pacientes que os lembram da impotência de seu suntuoso diploma de medicina na parede.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Quem perdeu muito sabe que há um certo alívio em não esperar nada de bom, em não desejar nada.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Era possível viver sem achar que a vida era um grande milagre.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“(...) ela sabe que sempre é possível contar com o egoísmo alheio. Nunca falha. Para todos é melhor acreditar. Basta um argumento, ainda que com furos por todos os lados, e se agarrarão a ele com as unhas. Gratos por poder continuar fingindo que não são fingidores.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Sabe que ele a considera competente, mas esquisita. São infinitas as formas de uma mulher adulta, razoavelmente atraente, com acesso a boas lojas, bons cosméticos e um bom cabeleireiro, encobrir a sordidez do próprio corpo. Mas há uma estranheza difusa que permanece. E é apenas pressentida pelo bicho agonizante, mas ainda vivo, de cada um. É isso que mantêm as pessoas afastadas dela. Ela sabe.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Tinham me contado que os escritores eram uma espécie de deuses. Eles criavam um mundo em que podiam viver e escapavam deste pela porta dos fundos.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“As paredes de mim me sufocam.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Ela me deseja um bom passeio como se fôssemos uma família normal. Será que existem famílias normais?”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Senti os dentes do tempo sobre meu corpo e desisti. Apenas desisti. Parei de me esforçar.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“É incrível como a gente adquire a capacidade de não se importar nem mesmo com o que dói em nós.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Se sabemos o que esperar, até mesmo a dor pode ser confortadora. E eu descubro que o pior caminho é melhor que o desconhecido.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Tanta coisa escrita, tanta gente escrevendo. Por que eu escrevo? O que eu tenho a dizer que já não tenha sido dito de milhares de maneiras diferentes?”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Nem me lembro de perguntar seu nome. Melhor assim. Os nomes nos ancoram a uma identidade. E o melhor daquele encontro é que ele era fluido, não tinha ficado impresso em lugar algum. Sem nomes, sem registro.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“O dicionário era proibido para mim. Meu pai achava o dicionário altamente perigoso. E tudo o que era perigoso deveria ser eliminado. Ou pelo menos controlado de perto.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“O Sol entra pelos furos da persiana. Sempre entra, mesmo que pessoas como eu não acreditem em Sol. Prefiro a chuva, que não obriga ninguém a ser feliz.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“E aquilo foi mais aterrorizante do que os filmes de terror que mais tarde eu veria um após outro para tentar sentir um medo que não me ameaçasse.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“É bom estar em qualquer lugar em que a gente não precise ser a gente mesma.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Acho que não tenho nada a dizer que já não tenha sido dito. E descobri que nem escrevo tão bem assim. Não sou capaz de inventar nada novo, entende? Harry Potter, por exemplo, a J. K. Rowling inventou um mundo inteiro. Eu não consigo inventar uma única palavra. Continuo presa em mim, entende? Entendo. Mas talvez não importe. Acho que você deveria apenas escrever. Talvez o novo nem exista. Talvez seja isso, um livro para mostrar que não existe nada novo. Que é tudo velho. E não faz mal. Estamos aqui e é o suficiente. Você escreve e é o suficiente.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Entre nós as verdades nunca vieram pelas palavras. Mas as verdades estão entre nós, nesse ar que ambas respiramos, naquilo que não pode ser dito, naquilo que às vezes fizemos para não ter de dizer.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Não há nenhuma hora da verdade porque não há verdade que não possa ser cortada em pedacinhos bem pequenos de mentiras.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Alguns sangram ferimentos antigos, uma criança chora. Apenas os acompanhantes falam sem parar como se estivessem num grupo de autoajuda. Mas, sem liderança, todos querem dar seu depoimento ao mesmo tempo. Ninguém quer escutar, eles precisam falar. Falam de dor e de urina e de sangue e de fezes. Ela não quer ouvir. E de como são abnegados por cuidar. É tão longa a fila de renúncias, o ressentimento aponta a cabeça em cada frase. Falam como se o doente não estivesse ouvindo.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“É curioso como as pessoas se sentem bem quando a loucura do outro soa maior que a delas.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“O branco, ela pensa, não é a soma de todas as cores, mas a ausência de todos os sentimentos. O branco não tem dor nem medo nem vilania. Por isso é a cor da paz, porque é uma soma que subtrai o humano.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Eu não sou deus para dizer se sua mãe vai morrer dessa doença. Querida Adriana, é exatamente este o ponto. Nem você nem seus colegas são deuses para decidir que minha mãe vai morrer cheia de cortes e de dores por nada. Mas há pesquisas e estudos suficientes para nos informar, para esclarecer se uma mulher de 70 anos com um câncer primário no fígado e metástases no sistema linfático, no estômago e no pulmão direito tem alguma chance de cura e por isso deve se submeter a uma cirurgia desse porte ou a cirurgia vai servir apenas para piorar sua qualidade de vida. Com informação, minha mãe pode pelo menos escolher como vai viver a sua vida até o fim. Você entende qual é o seu papel nesta história? A decisão de como minha mãe vai viver não é sua. É dela.
Tem vontade de rir por se referir à qualidade de vida. Mas sabe que seu discurso é coerente, moderno até. É um embate de palavras, por enquanto. E as palavras servem também para nos vestir. De repente ela quer proteger a mãe da miséria toda que a médica não tem como adivinhar, da miséria a que aqueles subdeuses de jaleco pretendem submetê-la.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Agora que o corpo da mãe se decompõe por dentro, que a degeneração é também da carne, não só da alma. Será que a alma estava tão estragada que contaminou também a carne? Ela pode sentir o cheiro de podre da mãe. Pode. Não, não é imaginação. A mãe fede como tripas ao sol. É isso o que é, afinal, a doença. As vísceras sendo comidas por dentro, o corpo se traindo e devorando a si mesmo.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Eu não acredito que vale a pena pensar em estatísticas. Em medicina, precisamos lutar. Até o fim. Doutor, o que o senhor acredita ou não pouco me interessa. É a minha vida. Quais são as minhas chances se eu fizer o que o senhor recomenda?”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Percebo que a senhora será uma paciente difícil. Eu ainda não decidi que serei sua paciente, doutor.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“É o seguinte, já que preferem o caminho mais doloroso. As chances são escassas. Mas o que a senhora prefere? Morrer sem lutar? Assim posso garantir que pelo menos prolongamos a sua vida. E que vida eu teria, doutor, depois de uma cirurgia desse tamanho e submetida a sessões de quimioterapia?
O médico não sabe o que dizer. Não está acostumado a ser confrontado e detesta a experiência.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Bem, há pessoas corajosas que preferem lutar até o fim. E não se deixar vencer pela doença. Pressionado, o médico não hesita em aplicar um golpe abaixo da cintura. A mãe não se deixa abater. Rebate mirando seus olhos. Eu sou covarde, doutor. Se não há chances reais de cura, prefiro aceitar.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Sem mãe, eu não precisava ser mulher. Quem saberia? Agora eu podia ter qualquer corpo meu. E eu preferia um corpo que não doesse, um corpo liso e duro, um corpo que podia se enfiar em alguém e machucar por dentro. E que não sangrava a cada óvulo morto, a cada criança viva.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“O que eu devia fazer é levá-la de volta ao hospital, como uma boa filha preocupada. E deixar que os médicos a abram. E façam tudo o que a sua onipotência gananciosa e a nossa conta bancária permita. Tudo o que de pior eu sonhei para ela e inteiramente dentro da lei. Algum tempo depois ela morrerá em dor, sozinha numa UTI, toda remendada, careca pela quimioterapia, presa a tubos e fios, sem poder falar nem me alcançar. E pronto, eu estarei livre e perfeitamente integrada à sociedade. Essa, afinal, é a forma mais cruel de matá-la. E eu ainda serei uma filha dedicada. Para o bem da mãe, a internei no hospital para que fosse salva contra a sua vontade. Lutarei ao lado dela pela sua vida até o fim, sem jamais esmorecer. Mais uma cirurgia? Claro. Surgiu um novo medicamento? Evidente que tentaremos. Tem efeitos colaterais dolorosos e ainda não totalmente conhecidos? Que lástima, mas precisamos pensar no bem maior, que é a salvação da sua vida. Aumentar as sessões de quimioterapia? Com certeza, o importante é lutar. Quem sabe não tentamos também uma radioterapia?”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“O que eu quero dizer é que não é porque a gente não saiba como fazer as coisas do jeito certo que a gente não ame. Eu não sabia qual era o jeito certo de amar, só isso. Como eu poderia?”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Acho que é isso, afinal. Eu fui um equívoco. Minha vida foi um grande mal-entendido. E mesmo que eu não estivesse morrendo, já seria tarde. Será que existe alguma vida que não seja um grande mal-entendido?”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Se existe céu e inferno, eu provavelmente vou para o inferno. Mas, ouso dizer, será uma injustiça. Porque eu não sabia. Apenas que eu não sabia. Se a gente não sabe, também é condenada? Ou há um hospício no além para gente inimputável, para os loucos como eu, os que não sabem o que fazem? Eu sei que sabia o que fazia. O que eu não sabia e não sei até hoje é como fazer diferente. Como a gente cria uma vida que não seja um grande mal-entendido?”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Quando sobram, as palavras podem ser imprevisíveis. E não é fácil usar as palavras certas.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“O problema é que um crime que envolve mais de um já não é mais perfeito.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“O câncer é como uma possessão alienígena de dentro para fora. De fato, não. É uma possessão do corpo pelo próprio corpo. O câncer é tão da minha mãe como as células sadias que fracassam em defendê-la da mutação de suas irmãs. É um filme de terror, filmado por dentro. Uma ficção científica que não é ficção. Fico fascinada com a quantidade de horror que a normalidade nos assegura dia após dia. Para que inventar zumbis e aliens vindos do espaço se existe o câncer?”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Há algo que você queira, mãe? Você diz, Laura, meu último desejo? Como um condenado do corredor da morte? Não, mãe, porque eles não podem escolher quando morrer. E você escolheu, mãe. Apenas a data, Laura. Só antecipei a data. De algum modo, somos todos condenados, não é?”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“O que aconteceu com ela? (...) Ora, o que está acontendo, sua estúpida. Ela está morrendo. A morte muda a perspectiva das coisas. Ou pelo menos eu acho que muda.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Você já comecou a morrer antes mesmo de falar. Você já morria, Laura, antes da palavra.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Nenhuma vida se completa. Isso ela agora sabe. Como a mãe, ela também vai esperar que algo se complete, mas a vida seguirá até o fim em aberto, inconclusa. A vida humana é a única que acaba sem um fim, porque é a única que o espera.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“Sabe agora que vai sobreviver. A vida só é possível na superfície.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“O que mais importa é o que não pode ser escrito, o que grita sem voz e sem corpo entre as linhas. O para sempre indizível.”
(Eliane Brum, no livro “Uma Duas”)



“É o sentimento a que os ingleses chamam de spleen, e que não tem correspondente na língua portuguesa. Em noites assim, a nossa realidade interior se mistura à atmosfera que o fog torna ainda mais densa, apagando os contornos da vida. O silêncio ao redor de nós como que se materializa. Os movimentos se fazem em câmera lenta, como o dos peixes no mundo das águas. Somos ectoplasmas de nós mesmos, flutuando no ar, integrados à eternidade do nada.”
(Fernando Sabino, na crônica “A Morte Vista de Perto”)



“Com ajuda de um e outro ele vai levando sua história aos solavancos pela estrada esburacada da memória.”
(Fernando Sabino, na crônica “Como Eu Ia Dizendo”)



“– Então é isso. Foi confusão minha – e ela não se deu por achada, muito menos por perdida.”
(Fernando Sabino, na crônica “O Que Faz Um Escritor”)



“– Um escritor é um sujeito que só sabe perguntar e não responder a perguntas.”
(Fernando Sabino, na crônica “O Que Faz Um Escritor”)



“Até que um dia deixamos de lado as conversas literárias, a vida foi rolando, e, com o tempo, fomos sabendo cada vez menos sobre literatura e tudo mais.”
(Fernando Sabino, na crônica “Pois Então Fique Sabendo”)



“Um dos fardos do irlandês é passar pela história sendo confundido com o inglês.”
(Frederick Forsyth, no conto “Dever”)



“Sempre ficava impressionado ao pensar que foram naquelas austeras pilastras de pedra que mercadores-aventureiros haviam obtido o apoio financeiro necessário para navegarem até as terras dos homens pardos, pretos e amarelos, a fim de comerciar, extrair riquezas minerais e pilhar em geral, enviando os butins de volta à City, para segurar, bancar e investir, até um ponto tal que as decisões tomadas naqueles três quilômetros quadrados de salas de reuniões e casas de contabilidade podiam determinar se um milhão de seres inferiores iriam ter trabalho ou passariam fome. O fato de que esses homens eram na verdade os saqueadores mais bem-sucedidos do mundo nunca lhe ocorrera.”
(Frederick Forsyth, no conto “Dinheiro Sob Ameaça”)



“Afinal, os ricos desejavam atualmente que suas casas novas tivessem 'classe', o que significava, entre outras coisas, que deviam parecer velhas.”
(Frederick Forsyth, no conto “Não Há Cobras na Irlanda”)



“Os que já viajaram sozinhos pelo mar ou pelo céu, através de grandes planícies cobertas de neve ou por desertos intermináveis, conhecem a sensação. Tudo é vasto, implacável, mas o mais terrível é o mar, porque se mexe.”
(Frederick Forsyth, no conto “O Imperador”)



“Comenta-se às vezes que os advogados costumam estimular os clientes a iniciar ações judiciais a torto e a direito, porque isso obviamente nos permite ganhar muito dinheiro e honorários. Na verdade, é o inverso que acontece, quase sempre. São geralmente os amigos, parentes e colegas do litigante que o instigam a lançar-se a uma ação judicial. O problema é que não são eles que vão arcar com os custos. Para quem está por fora, um bom caso no tribunal mais parece um circo. Mas nós, que exercemos a advocacia, conhecemos muito bem os custos de uma ação judicial.”
(Frederick Forsyth, no conto “Privilégio”)



“É justamente o ponto a que estou querendo chegar. Hoje em dia, somente os ricos podem processar os ricos. (...) Os grandes jornais, assim como as grandes editoras e outras empresas do ramo, sempre têm seguro contra processos de calúnia. Podem contratar os melhores advogados. Assim, quando enfrentam... se me permite a expressão... um homem sem maior importância, não lhe dão a menor importância.”
(Frederick Forsyth, no conto “Privilégio”)



“Como a maioria dos conquistadores ricos, Mark Sanderson só ficaria impressionado por uma mulher que, sinceramente, não se impressionasse com ele. Ou, pelo menos, não se impressionasse com a sua personalidade pública, a que representava dinheiro, poder e reputação. Ao contrário da maioria dos conquistadores, ele ainda tinha capacidade suficiente de autoanálise para admitir isso, pelo menos para si mesmo. Admiti-lo publicamente significaria a morte pelo ridículo.”
(Frederick Forsyth, no conto “Sem Perdão”)



“As mulheres amam ser amadas, adoram ser adoradas. E desejam ser desejadas. Mais do que todas essas coisas juntas, porém, necessitam ser necessárias.”
(Frederick Forsyth, no conto “Sem Perdão”)



“Nunca antes fora-lhe recusada qualquer coisa. E, como a maioria dos homens de poder, ampliado ao longo de uma década, tornara-se um aleijado moral. Para ele, havia etapas lógicas e precisas do desejo à determinação, concepção, planejamento e execução. E tudo terminava inevitavelmente em aquisição.”
(Frederick Forsyth, no conto “Sem Perdão”)



“Como muitos homens ricos, na meia-idade, Hanson há muito que mantinha uma amizade pessoal com quatro de seus mais valiosos conselheiros: o advogado, o corretor, o contador e o médico.”
(Frederick Forsyth, no conto “Um Homem Cuidadoso”)



“— Há algum tempo, Martin, que você vem insistindo para que eu faça um testamento.
— Exatamente. Trata-se de uma precaução das mais sensatas que há muito vem sendo relegada.”
(Frederick Forsyth, no conto “Um Homem Cuidadoso”)



“Preferi essa forma insólita de dinheiro vivo, porque tenho a maior aversão, como acontece com todos nós, a entregar grandes parcelas do meu dinheiro, arduamente conseguido, aos fiscais de impostos.”
(Frederick Forsyth, no conto “Um Homem Cuidadoso”)



“— Siga as regras, rapaz, siga as regras — seu velho sargento costumava dizer, anos antes —, afinal, não somos Sherlock Holmes.
Um bom conselho. Mais casos já haviam sido perdidos nos tribunais por erro nos procedimentos policiais do que ganhos pelo brilho intelectual.”
(Frederick Forsyth, no conto “Usado Como Prova”)



“Hanley ficou esperando por um comentário, qualquer sinal de comunicação do velho. Não houve nenhum. Não tinha importância. Ele era tão paciente quanto um boi quando queria que um homem falasse. E todos acabavam falando, mais cedo ou mais tarde. Para se aliviarem. Para se livrarem do fardo. A Igreja há muito que conhecia o alívio da confissão.”
(Frederick Forsyth, no conto “Usado Como Prova”)



“Eram as sedes dos quatro ministérios entre os quais se dividia a totalidade do aparato governamental. O Ministério da Verdade, responsável por notícias, entretenimento, educação e belas-artes. O Ministério da Paz, responsável pela guerra. O Ministério do Amor, ao qual cabia manter a lei e a ordem. E o Ministério da Pujança, responsável pelas questões econômicas.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Pela primeira vez deu-se conta da dimensão do seu projeto. Como fazer para comunicar-se com o futuro? Era algo impossível por natureza. Ou bem o futuro seria semelhante ao presente e não daria ouvidos ao que ele queria lhe dizer, ou bem seria diferente e sua iniciativa não faria sentido.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Estranho, parecia não apenas ter perdido a capacidade de se expressar, como inclusive ter esquecido o que originalmente pretendia dizer. Durante semanas se preparara para aquele momento e jamais lhe passara pela cabeça que pudesse ter necessidade de alguma coisa que não coragem.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Os adeptos mais fanáticos do Partido, os devoradores de slogans, os espiões amadores e os farejadores de inortodoxia eram sempre mulheres, sobretudo os jovens.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Goldstein bradava seu discurso envenenado de sempre sobre as doutrinas do Partido – um discurso tão exagerado e perverso que não servia nem para enganar uma criança, e ao mesmo tempo suficientemente plausível para fazer com que o ouvinte fosse tomado pela sensação alarmada de que outras pessoas menos equilibradas do que ele próprio poderiam ser iludidas pelo que estava sendo afirmado.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Em parte era uma espécie de hino à sabedoria e à majestade do Grande Irmão, mas antes de mais nada era um ato de auto-hipnose, um embotamento voluntário da consciência por intermédio de um ruído rítmico.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Ainda nos encontraremos no lugar onde não há escuridão.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Winston tinha a sensação de estar vagando pelas florestas do fundo do mar, perdido num mundo monstruoso em que o monstro era ele próprio. Estava sozinho.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Voltou a perguntar-se para quem estaria escrevendo o diário. Para o futuro, para o passado – para uma época talvez imaginária.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Não era fazendo-se ouvir, mas mantendo a sanidade mental que a pessoa transmitia sua herança humana.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Ele já estava morto, refletiu. Parecia-lhe que só agora, quando começava a ser capaz de formular seus pensamentos, dera o passo decisivo. As consequências de toda ação estão contidas na própria ação. (...) Agora que se via como um homem morto, tornava-se importante continuar vivo o maior tempo possível.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Agora havia medo, ódio e dor, mas não dignidade na emoção, não tristezas profundas ou complexas.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“À sua maneira infantil, Winston entendeu que alguma coisa terrível, alguma coisa que estava além do perdão e que jamais poderia ser remediada, acabara de suceder.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“O inimigo do momento sempre representava o mal absoluto.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Ortodoxia significa não pensar – não ter necessidade de pensar. Ortodoxia é inconsciência.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Meditava, irritado, sobre a textura física da vida. A vida teria sido sempre assim? (...) O tempo todo, no estômago, na pele, havia uma espécie de protesto, uma sensação de logro: a sensação de que havia sido despojado de alguma coisa que tinha o direito de possuir. (...) E embora, evidentemente, tudo piorasse à medida que o corpo envelhecia, não seria um sinal de que tudo aquilo não era a ordem natural das coisas o fato de que o coração da pessoa ficava apertado com o desconforto e a sujeira e a escassez (...)?”
(George Orwell, no livro “1984”)



“O pior inimigo de uma pessoa, refletiu, era seu sistema nervoso.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Enquanto eles não se conscientizarem, não serão rebeldes autênticos e, enquanto não se rebelarem, não têm como se conscientizar.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Como saber quais daquelas coisas eram mentiras? Talvez fosse verdade que as condições de vida do ser humano médio fossem melhores hoje do que eram antes da Revolução. Os únicos indícios em contrário eram o protesto mudo que você sentia nos ossos, a percepção instintiva de que suas condições de vida eram intoleráveis e de que era impossível que em outros tempos elas não tivessem sido diferentes. Pensou que as únicas características indiscutíveis da vida moderna não eram sua crueldade e falta de segurança, mas simplesmente sua precariedade, sua indignidade, sua indiferença.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Entendo COMO, mas não entendo POR QUÊ.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Supunha-se que quando não estivessem trabalhando, comendo ou dormindo estariam participando de algum tipo de recreação comunitária; fazer alguma coisa que sugerisse gosto pela solidão, mesmo que fosse apenas sair para dar uma volta sozinho, sempre envolvia algum risco. Havia um termo para isso em Novafala: vidaprópria, com o sentido de individualismo e excentricidade.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Com uma espécie de perplexidade, Winston refletiu sobre a inutilidade biológica da dor e do medo, a perfídia do corpo humano, que invariavelmente se entregava à inércia justo no momento em que se fazia necessário um esforço especial. Poderia ter silenciado a moça de cabelo preto se tivesse agido com rapidez; mas, exatamente porque o perigo que corria era tão extremo, perdera a capacidade de agir. Ocorreu-lhe que em momentos de crise o embate da pessoa nunca era com um inimigo externo, mas sempre com seu próprio corpo.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Tudo pura camuflagem. Se você obedecesse às regras desimportantes, poderia desobedecer às importantes.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Quando você faz amor, está consumindo energia; depois se sente feliz e não dá a mínima para coisa nenhuma. E eles não toleram que você se sinta assim. Querem que você esteja estourando de energia o tempo todo. Toda essa história de marchar para cima e para baixo e ficar aclamando e agitando bandeiras não passa de sexo que azedou. Se você está feliz na própria pele, por que se excitar com esse negócio de Big Brother, Planos Trienais, Dois Minutos de Ódio e todo o resto da besteirada?
Tudo muito verdadeiro (...). Havia uma conexão íntima e direta entre castidade e ortodoxia política.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Nesse jogo que estamos jogando, não temos como vencer. Alguns tipos de fracasso são melhores do que outros, só isso.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Não aceitava como uma lei da natureza o indivíduo ser sempre derrotado. De certa maneira, Julia percebia que ela própria estava condenada, que mais cedo ou mais tarde a Polícia das Ideias haveria de apanhá-la e amá-la, mas com outra parte de sua mente acreditava que havia algum jeito de construir um mundo secreto onde fosse possível viver do jeito que se quisesse. Só era preciso sorte, esperteza e ousadia. Não entendia que essa coisa chamada felicidade não existisse, que a única vitória estaria num futuro distante, muito depois da morte da pessoa, que a partir do momento em que se declarava guerra ao Partido era melhor pensar em si próprio como um cadáver.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Conversando com ela, ele percebeu como era fácil exibir um ar de ortodoxia sem fazer a menor ideia do que fosse 'ortodoxia'. De certa maneira, a visão de mundo do Partido era adotada com maior convicção entre as pessoas incapazes de entendê-la (...). Graças ao fato de não entenderem, conservavam a saúde mental. Limitavam-se a engolir tudo, e o que engoliam não lhes fazia mal, porque não deixava nenhum resíduo, exatamente como um grão de milho passa pelo corpo de uma ave sem ser digerido.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Winston aceitara o fato. O fim estava contido no princípio. Porém era assustador; ou, mais exatamente, era como uma prévia da morte, como estar um pouco menos vivo.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Mas... e se seu objetivo não fosse permanecer vivo, e sim permanecer humano? Que diferença isso faria no fim?”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Esses povos nada acrescentam à riqueza do mundo, visto que tudo o que produzem é usado para fins de guerra, e o objetivo de travar uma guerra é sempre estar em melhor posição para travar outra guerra. Com seu trabalho, as populações escravas permitem que se acelere o ritmo da guerra contínua. No entanto, se não existissem, a estrutura da sociedade mundial e o processo graças ao qual ela se mantém não apresentariam diferenças essenciais.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Mas também ficou claro que o aumento global da riqueza talvez significasse a destruição – na verdade em certo sentido foi a destruição – da sociedade hierárquica. Num mundo no qual todos trabalhassem pouco, tivessem o alimento necessário, vivessem numa casa com banheiro e refrigerador e possuíssem carro ou até avião, a forma mais óbvia e talvez mais importante de desigualdade já teria desaparecido. Desde o momento em que se tornasse geral, a riqueza perderia seu caréter distintivo. Claro, era possível imaginar uma sociedade na qual a riqueza, no sentido de bens e luxos pessoais, fosse distribuída equitativamente, enquanto o poder permanecia nas mãos de uma pequena casta privilegiada. Na prática, porém, uma sociedade desse tipo não poderia permanecer estável por muito tempo. Porque se lazer e segurança fossem desfrutados por todos igualmente, a grande massa de seres humanos que costuma ser embrutecida pela pobreza se alfabetizaria e aprenderia a pensar por si; e depois que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde essa massa se daria conta de que a minoria privilegiada não tinha função nenhuma e acabaria com ela. A longo termo, uma sociedade hierárquica só era possível num mundo de pobreza e ignorância.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“O problema era: como manter as rodas da indústria em ação sem aumentar a riqueza real das pessoas? Era preciso produzir mercadorias, mas as mercadorias não podiam ser distribuídas. Na prática, a única maneira de conseguir isso foi com a guerra ininterrupta.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“O livro o fascinava, ou, mais exatamente, tranquilizava-o. Em certo sentido não lhe dizia nada de novo, o que era parte do fascínio. Dizia o que ele teria dito, se tivesse a capacidade de organizar seus pensamentos dispersos. Era o produto de uma mente semelhante à dele, porém muitíssimo mais poderosa, mais sistemática, menos amedrontada. Os melhores livros, compreendeu, são aqueles que lhe dizem o que você já sabe.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Os objetivos desses três grupos são inconciliáveis. O objetivo dos Altos é continuar onde estão. O objetivo dos Médios é trocar de lugar com os Altos. O objetivo dos Baixos, isso quando têm um objetivo – pois uma das características marcantes dos Baixos é o fato de estarem tão oprimidos pela trabalheira que só a intervalos mantêm alguma consciência de toda e qualquer coisa externa a seu cotidiano –, é abolir todas as diferenças e criar uma sociedade na qual todos os homens sejam iguais (...). Dos três grupos, apenas os Baixos jamais conseguem, nem temporariamente, sucesso na conquista de seus objetivos (...). Do ponto de vista dos Baixos, nenhuma mudança histórica chegou a significar muito mais que uma alteração no nome de seus senhores.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“O movimento cíclico da história tornara-se inteligível, ou pelo menos dava a impressão de sê-lo – e se era inteligível, também era alterável. Mas a causa principal, subjacente, era que, já no início do século XX, a igualdade humana se tornara tecnicamente possível. Além disso, continuava sendo verdade que os homens não eram iguais no que dizia respeito a seus talentos inatos, e que era preciso especializar as funções de maneira a favorecer este indivíduo em detrimento daquele; mas já não havia a menor necessidade real de existir distinções de classe ou grandes diferenças de riqueza. Em épocas anteriores, as distinções de classe tinham sido não apenas inevitáveis como desejáveis. A desigualdade era o preço da civilização. Com o desenvolvimento da produção mecanizada, porém, a situação se alterara. Embora continuasse necessário que os seres humanos realizassem diferentes tipos de tarefas, já não era necessário que vivessem em níveis sociais ou econômicos diferentes. Desse modo, do ponto de vista dos novos grupos que estavam em vias de assumir o poder, a igualdade humana já não era um ideal a perseguir, mas um perigo a evitar.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“As massas nunca se revoltam por iniciativa própria, e nunca se revoltam só porque são oprimidas. Acontece que enquanto não lhes for permitido contar com termos de comparação, elas nunca chegarão sequer a dar-se conta de que são oprimidas.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Seja qual for a opinião que as massas adotam ou deixam de adotar, essa opinião só merece indiferença. As massas só podem desfrutar de liberdade intelectual porque carecem de intelecto. Num membro do Partido, porém, o menor desvio de opinião sobre o mais isignificante dos assuntos é intolerável.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Se quisermos evitar para sempre o advento da igualdade entre os homens – se quisermos que os Altos, como os chamamos, mantenham para sempre suas posições –, o estado mental predominante deve ser, forçosamente, o da insanidade controlada.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“O fato de ser uma minoria, mesmo uma minoria de um, não significava que você fosse louco. Havia verdade e havia inverdade, e se você se agarrasse à verdade, mesmo que o mundo inteiro o contradissesse, você não estaria louco.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Naquele lugar era impossível sentir alguma coisa, só dor e antecipação da dor. Além disso, seria possível que, no momento mesmo em que se sofre, por alguma razão se pudesse desejar que a dor aumentasse?”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Nunca, por nenhuma razão neste mundo, seria possível desejar um acréscimo de dor. Quanto à dor, só era possível desejar uma coisa: que ela cessasse. Nada no mundo era tão ruim quanto a dor física. Diante da dor não há heróis (...).”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Havia ocasiões em que a coisa se prolongava tanto, tanto, que o que lhe parecia realmente cruel, perverso e indesculpável não era os guardas continuarem batendo nele, mas que não conseguisse se obrigar a perder a consciência.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Por acaso o passado existe concretamente no espaço? Há em alguma parte um lugar, um mundo de objetos sólidos, onde o passado ainda esteja acontecendo?
Não.
Então onde o passado existe, se de fato existe?
Nos documentos. Está registrado (...). E na mente. Na memória humana.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Só a mente disciplinada enxerga a realidade, Winston. Você acha que a realidade é uma coisa objetiva, externa, algo que existe por conta própria. Também acredita que a natureza da realidade é autoevidente. Quando se deixa levar pela ilusão de que vê alguma coisa, supõe que todos os outros veem o mesmo que você. Mas eu lhe garanto, Winston, a realidade não é externa. A realidade existe na mente humana e em nenhum outro lugar.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Reavivara-se em seu íntimo o velho sentimento de que no fundo não importava se O'Brien era amigo ou inimigo. O'Brien era alguém com quem se podia conversar. Talvez fosse mais importante ser compreendido que amado.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Ele já sabia o que O'Brien ia dizer. Que o Partido não desejava o poder em benefício próprio, mas para o bem da maioria. Que precisava ter poder porque as massas eram compostas de pessoas frágeis e covardes que não aguentam a liberdade, não conseguem encarar a verdade e precisam ser governadas e iludidas sistematicamente por outras pessoas mais fortes do que elas. Que a humanidade deve optar entre liberdade e felicidade e que, para a esmagadora maioria da população, felicidade era o melhor. Que o Partido era o eterno guardião dos fracos, uma congregação dedicada que fazia o mal para que prevalecesse o bem, que sacrificava a própria felicidade em benefício da felicidade dos demais. O terrível, pensou Winston, o terrível era que quando O'Brien dizia aquelas coisas ele acreditava.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Somos diferentes de todas as oligarquias do passado porque sabemos muito bem o que estamos fazendo. Todos os outros, inclusive os que se pareciam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto de nós em matéria de métodos, mas nunca tiveram a coragem de reconhecer as próprias motivações. Diziam, e talvez até acreditassem, que tinham tomado o poder contra a vontade e por um tempo limitado. E que na primeira esquina da história surgiria um paraíso em que todos os seres humanos seriam livres e iguais. Nós não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com o objetivo de abandoná-lo. Poder não é um meio, mas um fim. Não se estabelece uma ditadura para proteger uma revolução. Faz-se a revolução para instalar a ditadura. O objetivo da perseguição é a perseguição. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Sozinho – livre – o ser humano sempre será derrotado. Assim tem de ser, porque todo ser humano está condenado a morrer, o que é o maior de todos os fracassos.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“As estrelas podem estar próximas ou distantes, segundo as nossas necessidades.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“'Como um homem pode afirmar seu poder sobre outro, Winston?'
Winston pensou. 'Fazendo-o sofrer', respondeu.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Como era fácil! Bastava render-se, que tudo o mais vinha em seguida. Era como nadar contra uma correnteza que empurrasse a pessoa para trás, por mais força que a pessoa fizesse, e depois de repente decidir virar para o outro lado e deixar-se levar pela correnteza em vez de opor-se a ela. Nada se alterara, exceto sua própria atitude; fosse como fosse, o que estava predestinado sempre acontecia. Winston não sabia direito por que se rebelara.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Não teve dificuldade em se livrar daquela falácia, e não corria o menor risco de sucumbir a ela. Compreendeu, porém, que ela nem sequer devia ter lhe ocorrido. A mente precisava desenvolver um ponto cego sempre que um pensamento perigoso viesse à tona. O processo devia ser automático, instintivo.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Era preciso, também, praticar uma espécie de atletismo mental: num momento recorrer ao raciocínio lógico mais sofisticado, e no momento seguinte ignorar os equívocos lógicos mais grosseiros. A burrice era tão necessária quanto a inteligência, e igualmente difícil de ser adquirida.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“De toda maneira, não bastava manter as feições sob controle. Pela primeira vez, Winston se dava conta de que, para guardar um segredo, teria de guardá-lo também de si mesmo. Era preciso ficar o tempo todo consciente da presença do segredo, mas, enquanto fosse possível, não podia permitir que ele assomasse à consciência sob nenhuma forma a que alguém pudesse dar um nome. De agora em diante, não bastava pensar direito; tinha de sentir direito, sonhar direito. E tinha de manter o ódio permanentemente trancado dentro de si, como um nódulo que fosse parte dele mesmo e ao mesmo tempo não tivesse relação com o resto do seu ser, uma espécie de cisto.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Havia dias em que iniciavam uma reunião e a encerravam no instante seguinte, reconhecendo com franqueza que na realidade não tinham nada para fazer. Mas havia dias em que se punham a trabalhar quase com entusiasmo, num afã de mostrar com que afinco registravam suas minutas. Nesses dias, elaboravam rascunhos de memorandos extensíssimos, que nunca eram concluídos – dias em que a discussão sobre o que supunham estar discutindo tornava-se extraordinariamente intrincada e abstrusa, com controvérsias sutis sobre definições, digressões enormes, brigas, durante as quais chegavam mesmo a ameaçar recorrer a autoridades superiores. E então, de repente, a vida se esvaía deles e eles ficavam sentados em volta da mesa, olhando uns para os outros com expressão apagada, como fantasmas se dissolvendo ao raiar do dia.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“O vocabulário da Novafala foi elaborado de modo a conferir expressão exata, e amiúde muito sutil, a todos os significados que um membro do Partido pudesse querer apropriadamente transmitir, ao mesmo tempo que excluía todos os demais significados e inclusive a possibilidade de a pessoa chegar a eles por meios indiretos. Para tanto, recorreu-se à criação de novos vocábulos e, sobretudo, à eliminação de vocábulos indesejáveis, bem como à subtração de significados heréticos e, até onde fosse possível, de todo e qualquer significado secundário que os vocábulos remanescentes porventura exibissem (...). Por outro lado, embora fosse vista como um fim em si mesma, a redução do vocabulário teve alcance muito mais amplo que a mera supressão de palavras hereges: nenhuma palavra que não fosse imprescindível sobreviveu. A Novafala foi concebida não para ampliar, e sim restringir os limites do pensamento, e a redução a um mínimo do estoque de palavras disponíveis era uma maneira indireta de atingir esse propósito.”
(George Orwell, no livro “1984”)



“Não entendia nada; por mais que escutasse, nada apreendia. Contudo trabalhava, trazia em ordem os cadernos, seguia todos os cursos, não perdia uma única aula. Cumpria a tarefa quotidiana do mesmo modo que um cavalo de nora, que gira no mesmo lugar de olhos vendados, ignorante do trabalho que faz.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“(...) aguardava o momento da sua morte; o pobre homem inda não tinha passado desta para a melhor e Carlos já se achava instalado na terra como seu sucessor.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Heloísa fizera-o jurar com a mão sobre um livro de missa que não voltaria lá; isto depois de muitos soluços e de muitos beijos, em uma grande explosão de amor. Ele obedeceu, mas a violência do seu desejo protestou contra o servilismo da sua conduta e, por uma espécie de hipocrisia ingênua, entendeu que aquela proibição de vê-la era para ele como que um direito de amá-la.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Mas, visto que é a sorte que nos espera, não deve uma pessoa desanimar e, porque outros morram, querer morrer também...”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Intimamente desculpava-a, concordando ter ela demasiada inteligência para a agricultura, mister amaldiçoado pelo céu, pois que nunca fizera enriquecer a ninguém.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Não podia convencer-se agora de que aquela tranquilidade em que vivia fosse a felicidade com que havia sonhado.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“E parecia-lhe que certos lugares da terra deviam dar a felicidade, como planta peculiar ao solo que não se dá bem em outra parte.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Desejava talvez fazer a alguém a confidência de todas estas coisas. Mas explicar um inexplicável mal-estar, que muda de aspecto como as nuvens e que se move em turbilhão como o vento? Faltavam-lhe, pois, palavras, ocasião e coragem.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“(...) assim bateu com o fuzil no coração sem lhe arrancar uma faísca, incapaz afinal de compreender o que não sentia.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“(...) e o tédio, aranha silenciosa, ia tecendo a sua teia na sombra de todos os cantos do seu coração.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Quanto menos Carlos compreendia aquelas elegâncias, mais o dominava a sedução delas. Acrescentavam-lhe qualquer coisa ao prazer dos sentidos e à doçura do lar. Eram como que um pó dourado que lhe cobria o caminho da vida, em toda a extensão.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Eu tenho uma religião, a minha religião, e mesmo até mais do que todos eles, com as suas momices e charlatanices. Eu creio em Deus! Creio no Ente Supremo, em um Criador, qualquer que seja, pouco importa, que nos pôs neste mundo para desempenharmos os nossos deveres de cidadãos e de pais de família; mas o que não preciso é ir a uma igreja beijar salvas de prata, engordar com a minha algibeira uma súcia de farsantes que vivem muito melhor do que nós! Porque o podemos venerar de qualquer maneira, em um bosque, em um campo, ou mesmo contemplando a abóbada celeste, como os antigos. (...) Por isso não admito um Deus que passeie no seu jardim de bengala na mão, aloje os amigos no ventre das baleias, morra soltando um grito e ressuscite ao fim de três dias: coisas absurdas por si mesmas e completamente opostas, além disso, a todas as leis da física; o que nos demonstra, de resto, que os padres têm sempre permanecido em uma ignorância torpe, na qual se esforçam por mergulhar as populações.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Já não lhe tem sucedido muitas vezes (...) encontrar em algum livro uma ideia vaga que já tivesse tido, alguma imagem meio desvanecida, que vem de longe e parece ser como que a exposição inteira do nosso sentimento mais sutil?”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Com efeito (...), as obras que não nos abalam o coração afastam-se, segundo me parece, da verdadeira finalidade da arte.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Foi assim (...) que eles entraram em uma dessas vagas conversações em que o acaso das frases nos conduz a todo instante ao centro fixo de uma simpatia comum.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Era a quarta vez que ela dormia em um lugar desconhecido. (...) e em todas elas sentira como que o começo de uma fase nova na sua vida. Ela não podia acreditar que as coisas pudessem surgir sempre iguais em lugares diferentes; e, uma vez que a parte já vivida fora má, tinha esperanças de que a que lhe restava viver havia de ser melhor.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“(...) e há sempre algum desejo que arrasta e alguma conveniência que detém.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“(...) as suas convicções filosóficas não impediam suas admirações artísticas; nele, o pensador não subjugava o homem sensível; sabia estabelecer diferenças, separar a imaginação do fanatismo.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Não teriam eles outra coisa a dizer? Os seus olhos, no entanto, transbordavam de palavras mais sérias; e, ao passo que se esforçavam por achar frases banais, sentiam-se ambos invadidos pelo mesmo encantamento; era como que um murmúrio da alma, profundo, contínuo, que dominava o das vozes. Surpreendidos e admirados por aquela nova suavidade, não pensavam em descrever a sensação ou descobrir-lhe a causa. As felicidades futuras, como as praias dos trópicos, projetam, na imensidade que as precede, as suas molezas nativas, brisas perfumadas; e nós nos entorpecemos na sua languidez, sem mesmo nos importarmos com o horizonte que não avistamos ainda.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Quanto a Ema, não se interrogava para saber se o amava. O amor, no seu entender, devia surgir de repente, com ruídos e fulgurações, tempestade dos céus que cai sobre a vida e a revolve, arranca as vontades como folhas e arrebata para o abismo o coração inteiro. Ela não sabia que nos terraços das casas a chuva forma poças quando as calhas estão entupidas, de maneira que se pôs de sobreaviso, até que subitamente descobriu uma fenda na parede.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Ela não falava e ele conservava-se mudo, tão cativado pelo seu silêncio como o estaria pelas suas palavras.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Era um desses sentimentos puros que não embaraçam a marcha da vida, que se conservam porque são raros, cuja perda ocasionaria dor maior que o regozijo da posse.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“(...) e a tristeza engolfava-se em sua alma com bramidos lamentosos, como o vento de inverno nos castelos abandonados. Era o devaneio do que não voltaria mais, a lassidão que nos toma depois de cada fato consumado, a dor, enfim, que nos traz a interrupção de todo movimento habitual, a cessação brusca de uma vibração prolongada.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Ema estava debruçada à janela (ali se punha frequentemente: a janela, na província, substitui o teatro e os passeios).”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Suas roupas tinham a incoerência das coisas comuns e bem cuidadas em que o vulgo ordinariamente julga entrever a revelação de uma existência excêntrica, os entrechoques de sentimentos, as tiranias impostas pela arte, e sempre um desprezo qualquer pelas convenções sociais, desprezo que seduz e exaspera.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“— A senhora não sabe então que há almas constantemente atormentadas? Precisam alternadamente de sonho e de ação, das paixões mais puras e dos gozos mais intensos, balançando-se assim a toda espécie de fantasias, de loucuras.
Ela o mirou, como quem mira um viajante que andou por terras extraordinárias:
— Nós, pobres mulheres, não temos nem essa distração!
— Triste distração em que não se acha felicidade...
— Mas por acaso consegue a gente achar a felicidade?”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Ora, lá vêm os deveres! Estou farto dessa palavra! Um bando de velhos papalvos, de colete de flanela, e beatas de aquecedor nos pés e rosário nas mãos, cantando eternamente ao nosso ouvido: o dever! o dever! Ora! O dever é sentir o que é grande, querer o que é belo, e não aceitar todas as convenções da sociedade, com as ignomínias que ela nos impõe.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“— Não! Por que bradar contra as paixões? Não são a única coisa bela que há sobre a terra, a origem do heroísmo, do entusiasmo, da poesia, da música, das artes, de tudo, enfim?
— Mas sempre é preciso seguir um pouco a opinião do mundo e observar sua moral.
— Muito bem, mas é que há duas no mundo. A pequena, a convencional, a dos homens, a que varia incessantemente, a que brada com força, agitando-se cá embaixo, terra-a-terra, como essa reunião de imbecis que a senhora vê. A outra, porém, a eterna, essa rodeia tudo e está acima de tudo, como a paisagem que nos circunda e o céu azul que nos ilumina.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Continuai! Perseverai! Não deis ouvido nem às sugestões da rotina nem aos conselhos precipitados dum empirismo temerário!”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Remontando à origem das sociedades, o orador descrevia os tempos bárbaros em que os homens se alimentavam de frutos no fundo das selvas. Deixaram os homens, depois, a pele dos animais, vestiram-se de pano, cavaram os sulcos, plantaram a vinha. Era isso um bem, não haveria em tal descobrimento mais inconvenientes que vantagens? O Sr. Derozerays estabeleceu o problema.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Mas quem a fizera tão infeliz? Onde estava a catástrofe extraordinária que a esmagara?
E ela ergueu a cabeça, olhando à sua volta, como a buscar a causa do que lhe fazia sofrer.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Invenções de Paris! Eis as ideias desses senhores da capital! São como o estrabismo, o clorofórmio e a litotrícia, um punhado de monstruosidades que o governo devia proibir! Mas querem passar por espertos e enchem-nos de remédios, sem olharem as consequências. Nós, os daqui, não somos tão notáveis, não somos sábios, janotas, levianos; somos práticos, homens que curam, e nunca sonharíamos operar alguém que goze perfeita saúde!”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Tantas vezes já a ouvira dizer tais coisas, que não lhe era mais novidade. Ema parecia-se às demais amantes; e o encanto da novidade, caindo aos poucos como um vestido, exibia a eterna monotonia da paixão, sempre da mesma forma e na mesma linguagem. Não podia alcançar, homem prático que era, a dessemelhança de sentimentos sob a igualdade das expressões. Porque lábios libertinos ou venais lhe haviam murmurado frases parecidas, quase não acreditava na pureza das que ouvia agora, achava que se devia fazer desconto nas expressões exageradas que escondiam aflições medíocres — como se a plenitude da alma não se extravasasse, às vezes, nas mais vazias metáforas, pois que ninguém pode jamais dar medida exata às próprias necessidades, concepções ou dores, e já que a palavra humana é como um caldeirão fendido em que batemos melodias para fazer dançar os ursos, quando antes queríamos enternecer as estrelas.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Nunca a Sra. Bovary fora tão bela como então; tinha essa inexprimível beleza que resulta da alegria, do entusiasmo, do êxito, e que nada mais é que a harmonia do temperamento com as circunstâncias. Os desejos, as tristezas, a experiência do prazer e as ilusões sempre novas, à maneira do que às flores fazem o adubo, a chuva, os ventos e o sol, tinham-na desenvolvido gradativamente, e ela desabrochava enfim em toda a pujança de sua natureza.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“O mundo é cruel, Ema. Por toda parte onde estivéssemos, ele nos perseguiria.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Há naturezas tão impressionáveis à influência de determinados aromas! Seria mesmo um belo tema para estudos, tanto sob o aspecto patológico como sob o aspecto fisiológico. Os padres conhecem-lhe a importância, eles que sempre misturaram os aromas em suas cerimônias. É para entorpecer o entendimento e provocar êxtases.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Censurava-se esquecer Ema, como se, pertencendo a ela todos os seus pensamentos, lhe furtasse algo, não pensando nela continuamente.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Mas o farmacêutico tomou a defesa das letras. Pretendia ele que o teatro servia para criticar os preconceitos e, sob a máscara do prazer, ensinar a virtude.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“— É como na Bíblia; há nela... o senhor sabe... mais de um detalhe... picante, coisas... verdadeiramente facetas!
E a um gesto de impaciência do cura:
— Ah! O senhor concordará em que não é um livro que se ponha nas mãos de uma jovem, e eu ficaria aborrecido se meu filho...
— Mas são os protestantes, e não nós — fez o padre, impaciente — que recomendam a Bíblia!”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Esses artistas todos queimam a vela por ambas as extremidades; precisam levar existência desavergonhada, que excite um pouco a imaginação. Mas acabam no hospital, porque não tiveram a previdência, quando moços, de fazer economia.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“O aprumo depende do meio em que estamos: não falamos na sobreloja da mesma forma que no quarto andar.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“— Não nos devemos acostumar a prazeres impossíveis, tendo à nossa volta mil exigências...
— Imagino...
— Não, você não pode imaginar, porque você não é mulher.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Haverá coisa mais lamentável que arrastar, como eu, uma existência inútil? Se nossas dores pudessem servir a alguém, consolar-nos-íamos com o pensamento do sacrifício!”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Não era a primeira vez que viam árvores, céu azul e relva, que ouviam a água corrente e a brisa ramalhando a folhagem; mas nunca decerto tinham admirado tudo isso, como se anteriormente a natureza não existisse, ou como se não tivesse começado a ser bela senão depois de eles terem saciado os seus desejos.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“(...) há artistas sem reputação de mais valor muitas vezes do que celebridades.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Mas o denegrirmos os que amamos sempre nos desliga deles um pouco. Não é bom tocar nos ídolos; o dourado pode sair nas nossas mãos.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Apesar disso, não era feliz, nunca o fora. De onde vinha, pois, aquela insuficiência da vida, aquele apodrecimento instantâneo das coisas em que se apoiava?... Mas se existia, fosse onde fosse, um belo e forte, uma natureza valorosa, cheia ao mesmo tempo de exaltação e de requintes, um coração de poeta com forma de anjo, lira com cordas de bronze, desferindo para o céu epitalâmios elegíacos, por que acaso não o encontraria ela? Que impossibilidade! Nada, afinal, valia a pena procurar-se; tudo mentira! Cada sorriso ocultava um bocejo de enfado, cada alegria uma maldição, todo prazer o seu desgosto, e os melhores de todos os beijos não deixavam nos lábios senão uma irrealizável ânsia de voluptuosidades mais intensas.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Afigurou-se-lhe então que estava ali, naquele banco, havia uma eternidade. Mas é que um infinito de paixões pode caber em um minuto, como uma multidão em um pequeno espaço.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Ela sentia-se tão desgostosa dele, como fatigado dela ele estava. Ema reencontrava no adultério toda a insipidez do lar conjugal.
Mas como desembaraçar-se? Além disso, por mais que a humilhasse a baixeza de tal ventura, estava presa a ela pelo hábito ou por corrupção; e a cada dia se lhe agarrava mais, exaurindo toda a felicidade à força de a querer muito grande.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“As coisas boas nunca se estragam.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Qualquer coisa de belicoso a dominava. Queria bater nos homens, cuspir-lhes na cara, triturá-los a todos; e continuava a caminhar rapidamente, pálida, trêmula, enraivecida, perscrutando com os olhos rasos de água o horizonte vazio, e como que se deleitando no ódio que a sufocava.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Quando avistou a sua casa, uma espécie de entorpecimento a acometeu. Não podia avançar; era preciso, contudo; ademais, para onde havia de fugir?”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Binet sorria-se, com o queixo baixo, as narinas dilatadas; parecia enfim perdido em uma dessas felicidades completas que são, sem dúvida, atributos apenas das ocupações medíocres, que divertem a inteligência com dificuldades fáceis, saciando-a com uma realização além da qual nada há que sonhar.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“(...) um pedido pecuniário, de todas as borrascas que podem cair sobre o amor, é a mais fria e a mais devastadora.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“(...) praticando a virtude sem acreditar nela, teria quase passado por um santo se a perspicácia do seu espírito não o tornasse temido como um demônio.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“(...) a presença de um eclesiástico era-lhe pessoalmente desagradável, porque a batina lhe fazia lembrar a mortalha e detestava uma pelo medo que lhe causava a outra.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Mas, uma vez que Deus conhece todas as nossas necessidades, de que pode servir a oração?”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Inflamavam-se, estavam vermelhos, falavam ao mesmo tempo sem se ouvir um ao outro; Bournisien escandalizava-se com tal audácia; Homais maravilhava-se com tamanha estupidez.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Carlos não era dos que descem ao fundo das coisas; recuou ante as provas e o ciúme incerto perdeu-se-lhe na imensidade do pesar.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“— Não, já não lhe quero mal.
E acrescentou uma grande frase, a única que jamais dissera:
— Foi culpa da fatalidade.”
(Gustave Flaubert, no livro “Madame Bovary”)



“Hoje sei muito bem que nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo.”
(Herman Hesse, no livro “Demian”)



“Todos temos origens comuns: as mães; todos proviemos do mesmo abismo, mas cada um – resultado de uma tentativa ou impulso inicial – tende a seu próprio fim. Assim é que podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se.”
(Herman Hesse, no livro “Demian”)



“Migue Kantum, de Lerma, é amigo de Canek. Escreve-lhe uma carta e envia a ele o seu filho para que faça dele um homem.
Canek responde dizendo-lhe que fará de seu filho um indígena.”
(Hermilo Abreu Gómez, no livro “Canek - História e lenda de um herói maia”)



“... adeus criancinhas douradas deste hilariante mundo louco...”
(Jack Kerouac, no livro “O Livro dos Sonhos”)



“— a maneira franco-canadense de usar o inglês para expressar humildade – significados – quem não é franco-canadense não entende uma coisa dessas.”
(Jack Kerouac, no livro “O Livro dos Sonhos”)



“Enquanto me acordo nesta cama de horror, presa de um pesadelo que só a vida seria capaz de inventar. Ah, fodam-se!”
(Jack Kerouac, no livro “O Livro dos Sonhos”)



“É só quando os sonhos perdem a importância que começa a suja interferência do mal – por sonhos se entenda o que se enxerga durante o sono – e não o que se deseja nos devaneios diurnos.”
(Jack Kerouac, no livro “O Livro dos Sonhos”)



“Agora eu sabia: as coisas são inteiramente o que parecem – e por trás delas... não existe nada.”
(Jean Paul Sartre, no livro “A Náusea”)



“É porque estou pensando – digo rindo – que aqui estamos, todos nós, comendo e bebendo, para conservar nossa preciosa existência, e que não há nada, nada, nenhuma razão para existir.”
(Jean Paul Sartre, no livro “A Náusea”)



“Gostaria de me entender com exatidão antes que seja tarde demais.”
(Jean Paul Sartre, no livro “A Náusea”)



“Um gesto, um acontecimento no pequeno mundo colorido dos homens sempre é apenas relativamente absurdo: em relação às circunstâncias que o acompanham. Os discursos de um louco, por exemplo, são absurdos em relação à situação em que este se encontra, mas não em relação ao seu delírio.”
(Jean Paul Sartre, no livro “A Náusea”)



“Aquele estúpido Karl mentiu a respeito dela, por omissão, como todos os agentes do mundo. Aprendem conosco a enganar, a não deixar vestígios, e acabam por enganar-nos também.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Sabia que estava acabado, mas isso constituía um fato da vida, que carregaria dali em diante como outros homens suportam a prisão ou o câncer. E como nada poderia preencher o abismo aberto entre o passado e o presente, encarava o seu declínio da mesma maneira que, um dia, enfrentaria, provavelmente, a morte: com ressentimento cínico e a coragem de um solitário.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“A espionagem tem uma lei moral — o que importa são os resultados obtidos.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Temos de viver sem compaixão, não é verdade? Mas é impossível. Toda essa rudeza que adotamos uns com os outros não passa de fingimento; na realidade, não somos assim. Quero dizer... uma pessoa não pode ser deixada eternamente no frio; em algum momento, tem de sair de lá.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“A princípio os colegas trataram-no com indulgência — talvez aquela decadência os assustasse como nos assustam os mendigos e os inválidos, pelo nosso receio de vir a ser como eles.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Você é um fanático que não deseja converter os outros, e isso é perigoso. Parece um homem que jurou vingar-se de qualquer coisa.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Odiavam-no porque ele conseguia ser o que, no íntimo do coração, todos desejavam ser: um mistério. (...) E odiavam-no porque, assim como o mundo exterior, ele não precisava deles.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Ashe era um exemplar típico daquela camada da humanidade que conduz as suas relações sociais de acordo com um princípio de ação e reação. Se encontrava brandura, avançava; se encontrava resistência, recuava. Como, pessoalmente, não tinha opiniões nem gostos, reagia conforme as opiniões e gostos do companheiro.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Aliás, deviam saber que (...) trapaceiros, mentirosos e criminosos são capazes de resistir a todas as tentações, e que cavalheiros respeitáveis são às vezes levados a cometer espantosas traições a troco de um cantinho num organismo oficial.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Como nos casamentos, acontecesse o que acontecesse, nada voltaria a ser como dantes.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Aparentemente, não acalentava ambições pessoais, mas mostrava-se implacável na destruição das dos outros.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Todo o nosso trabalho, o seu e o meu, se alicerça na teoria de que a coletividade é mais importante do que o indivíduo. (...) Só a necessidade coletiva pode justificar a exploração individual, não é verdade?”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Às vezes, como era advogado, perguntava apenas por prazer, para demonstrar a discrepância entre as evidências e a perfeita verdade.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“— Que quer dizer com filosofia? Não somos marxistas, não somos nada; somos apenas pessoas.
— Nesse caso, são cristãos? (...) Se não, o que os trouxe à profissão? (...) Devem ter uma filosofia.
— Devem ter por quê? Talvez não saibam, nem se importem com isso. Nem toda a gente tem uma filosofia.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“— Se não sabem o que querem, como podem estar convencidos de que têm razão?
— Quem lhe disse que estão convencidos disso?”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Nunca pretendemos ser absolutamente justos no processo de racionalização da sociedade. Não foi um romano qualquer que disse, segundo a Bíblia cristã, que 'era necessário morrer um homem para benefício de muitos'?”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Essa é a sua virtude, a sua grande virtude: a indiferença.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Um homem que representa um papel, não para outros, mas sozinho, expõe-se a perigos psicológicos evidentes. Em si mesma, a mentira não é particularmente difícil; trata-se de uma questão de prática, de perícia profissional, de uma habilidade, em suma, que muitos de nós podemos adquirir. Mas enquanto um vigarista, um ator ou um jogador profissional pode voltar da ribalta às fileiras dos seus admiradores, o agente secreto não goza dessa possibilidade. Para ele, o embuste é, antes de tudo, uma estratégia de autodefesa. Tem de proteger-se do interior e do exterior e contra os impulsos mais naturais. Mesmo que ganhe uma fortuna, o seu papel pode impedi-lo de comprar até uma lâmina de barbear; mesmo que seja um intelectual, pode ver-se obrigado a gaguejar apenas banalidades; mesmo que seja marido e pai afetuoso, terá de ocultar a sua vida àqueles em quem, naturalmente, devia confiar.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“É dos que atiram primeiro e perguntam depois. O princípio da intimidação... Estranho sistema numa profissão em que as perguntas são, logicamente, mais importantes que os tiros. (...) Estranho sistema, a não ser que tenhamos medo das respostas.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Gostaria que fossem mais honestos, mas também mentia a si própria acerca de tudo aquilo. Talvez todos mentissem, ou talvez os outros compreendessem melhor do que ela por que tinham de mentir tanto.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Há pessoas que criam canários, outras que aderem ao partido.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Não confiava muito nos alemães, embora lhe houvessem dito que os da Alemanha Ocidental eram militaristas e vingativos, e os da Alemanha Oriental, democratas e amantes da paz. Duvidava de que todos os maus alemães estivessem de um lado e todos os bons do outro ...).”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“Tinha voz agradável, (...), mas raro a utilizava. Talvez fizesse parte da sua extraordinária autoconfiança falar apenas quando expressamente o desejava, permitir longos silêncios em vez de trocar palavras sem sentido.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“É preciso destruir o conceito de que os trabalhadores intelectuais pertencem a uma categoria mais elevada! Não existem categorias, mas apenas trabalhadores; não há antítese entre trabalho físico e mental.”
(John Le Carré, no livro “O Espião Que Saiu do Frio”)



“No seio infinito das ondas o nauta sente-se isolado; é átomo envolto numa dobra do infinito.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“Para a fúria dos elementos inventou o Criador as rijezas cadavéricas da natureza. Diante da vaga impetuosa colocou o rochedo; como leito de furacão estendeu pela terra as infindas savanas da América e os ardentes areais da África.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“A savana permanece como foi ontem, como há de ser amanhã, até o dia em que o verme homem corroer essa crosta secular do deserto.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“Cada região da terra tem uma alma sua, raio criador que lhe imprime o cunho da originalidade. A natureza infiltra em todos os seres que ela gera e nutre aquela seiva própria; e forma assim uma família na grande sociedade universal.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“(...) no rosto anuviado perpassou o sorriso plácido e sereno das grandes almas, que uma cólera pequena não conturba. São essas almas como o grande oceano; qualquer borrasca não o agita; para subvertê-lo, é preciso o tufão dos Andes.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“Este mundo é governado por duas coisas: a força ou a astúcia. O mais, isso de lei, de liberdade e justiça, são palavras sonoras para o povo, que no fim de contas não passa de um menino a quem se acalenta com um chocalho...”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“(...) para mim a liberdade não é uma burla para enganar o povo, mas o primeiro bem, que não se perde sem desonra, e não se tira sem traição.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“— São coisas que não esquecem nunca.
— Não esquecem, bem sei; mas se perdoam.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“As súbitas antipatias são incompreensíveis; é este um mistério d'alma, que a ciência ainda não conseguiu perscrutar. Parece que há no magnetismo animal, como na eletricidade da atmosfera, um fluido de repulsão e um fluido de atração; um pólo para o amor e outro para o ódio.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“Por uma terna solicitude sofreava Manuel os impulsos do amor materno, poupando as forças da égua, que na impaciência de ver o filho, e talvez salvá-lo, podia matar-se. Tão comum é essa sublime insensatez na criatura racional, que não pode admirar no bruto!”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“(...) a indiferença e frieza que mostrava em seu trato, não provinham de um hábito somente; eram a repercussão interior da pouca estima em que o gaúcho tinha geralmente a raça humana.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“O espírito guarda ainda mais do que a matéria as primitivas impressões. É uma lâmina polida a consciência do menino, onde a luz da razão nascente esgrafia com extraordinário vigor as primeiras imagens da vida. Muitos outros raios projetam depois em nós sombras vigorosas, que todavia não desvanecem esse estereótipo indelével da infância.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“O gaúcho tinha consciência, mas não orgulho de seu valor. Para um rio-grandense (...), ser bravo, tanto como o mais bravo, era obrigação. Não havia mérito nisso.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“A outra fração muito mais numerosa do partido da resistência não tinha ideias de separação e independência. Limitava-se a restaurar e manter o que chamava liberdade, palavra tão vaga na linguagem dos partidos, que em seu nome se cometem os maiores atentados contra a lei e a justiça.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“Assim, por uma contradição muito frequente em política, dois interesses opostos, mas ofendidos, se reuniam para destruir o obstáculo comum. É o efeito dos governos fracos e perplexos como foi o da regência trina; sofrem ao mesmo tempo a irritação dos aliados e o desprezo dos adversários.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“Não se decepa um membro para dar-lhe força.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“Não recebeu a América, do Criador, as três raças de animais, amigos e companheiros do homem, o cavalo, o boi e o carneiro. Este fato, que à primeira vista parece uma anomalia da natureza, revela ao contrário um desígnio providencial. Regenerar é a missão da América nos destinos da humanidade. Foi para esse fim, que Deus estendeu de um polo a outro este vasto continente, rico de todos os climas, fértil em todos os produtos, e o escondeu por tantos séculos sob uma prega de seu manto inconsútil.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“O motivo por que você me quer matar, pouco me importa saber; eu nunca perguntei à jararaca por que morde a gente. Mas para que eu o mate, é preciso ter uma razão; não mato gente à toa.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“Há na natureza humana dessas excentricidades; o coração que nas grandes lutas atinge ao heroísmo, é de uma tibieza incrível nas pequenas contrariedades.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“A alma que uma vez subtrai-se ao domínio de outra, reage com um impulso irresistível. Não há pior déspota do que seja o cativo submisso, quando se revolta.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“Ora o povo tem o instinto gramatical; e portanto, nos verbos de uso vulgar, adotou a fórmula 'diz tu', 'faz tu', por mais natural e breve e eufônica.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“É natural que certos críticos não achando a palavra nos dicionários, a capitulem de erro, esquecendo que os léxicons, onde vão beber a lição da língua, são meramente portugueses e portanto omissos a respeito de muitos brasileirismos (...).
(...)
Cumpre que nos compenetremos desta verdade. O uso de nosso povo e o bom gosto dos escritores nacionais hão de cunhar palavras brasileiras, apesar das iras clássicas e das excomunhões dos gramáticos.”
(José de Alencar, no livro “O Gaúcho”)



“(...) a bondade das pessoas não é melhor do que elas são, também sujeita a eclipses e contradições, constante só raramente (...)”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) a cobardia é pior que o polvo, o polvo tanto encolhe como estende os braços, a cobardia só sabe encolhê-los (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) Acomode o corpo para receber o afago derradeiro do sol que vai pousar-se no mar por um segundo, de todos o mais longo, porque o olhamos e ele se deixa olhar.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) à falta de convictas certezas faz-se de conta.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) agora se vê como tinha razão aquele admirável entendedor de sensações e impressões que afirmou ser a paisagem um estado de alma, o que ele não soube foi dizer-nos como seriam as vistas no tempo em que não havia no mundo mais que pitecantropos, com pouca alma ainda, e, além de pouca, confusa.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) a importância relativa dos assuntos é variável, ele é o ponto de vista, ele é o humor do momento, ele é a simpatia pessoal, a objetividade do narrador é uma invenção moderna, bata ver que nem Deus Nosso Senhor a quis no seu Livro.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) ainda há quem não acredite em coincidências, quando coincidências é o que mais se encontra e prepara no mundo, se não são as coincidências a própria lógica do mundo.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) a lua está perdida entre os ramos da figueira, vai levar toda a noite à procura do caminho.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) A minha sabedoria está-me aqui a segredar que tudo só parece, nada é, e temos de contentar-nos com isso (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) Aonde vais, Vou para a festa, Donde vens, Venho da festa, mesmo sem a ajuda de pontos de exclamação e reticências vê-se logo a diferença que há entre a alegre expectativa da primeira resposta e a desencantada fadiga da segunda, só na página em que ficam escritas parecem iguais.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) aos povos pequenos ninguém dá ouvidos, não é mania da perseguição, mas histórica evidência.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) artifícios ornamentais de um canto plano que sonha com asas de música plena (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) as povoações que Dois Cavalos atravessa têm aquele ar adormecido que dizem ser o próprio das terras do sul, indolentes lhes chamam as tribos do norte, são desprezos fáceis e soberbas de casta de quem nunca teve de trabalhar com este sol às costas.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) as vidas não começam quando as pessoas nascem, se assim fosse, cada dia era um dia ganho, as vidas principiam mais tarde, quantas vezes tarde de mais, para não falar daquelas que mal tendo começado já se acabaram, por isso é que o outro gritou, Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) a verdade está sempre à nossa espera, chega o dia em que não podemos fugir-lhe.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“Como se teria formado a arreigada superstição, ou convicção firme, que é, em muitos casos, a expressão alternativa paralela, ninguém hoje o recorda, embora, por obra e fortuna daquele conhecido jogo de ouvir o conto e repeti-lo com vírgula nova, usassem distrair as avós francesas a seus netinhos com a fábula (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) continuamos sem saber que feições são as suas, parece este homem que se esconde, e não é tal, quantas vezes aconteceu mostrarmo-nos como quem somos, e não valeu a pena, não estava lá ninguém para ver.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“Decidir é dizer sim ou não, sopro da boca para fora, as dificuldades é depois que vêm, na parte prática, como diz a grande experiência do povo, ganha à custa de tempo e da paciência para suportá-lo, com poucas esperanças e mudanças ainda menos.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) dependendo mais do leitor do que da leitura, embora esta em tudo dependa daquele, por isso nos é tão difícil saber quem lê o que foi lido e como ficou o que foi lido por quem leu (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) de que adiantaria falar de motivos, às vezes basta um só, outras vezes nem juntando todos, se as vidas de cada um de vocês não vos ensinaram isto, coitados, e digo vidas, não vida, porque temos várias, felizmente vão-se matando umas às outras, senão não poderíamos viver.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores, basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém à necessidade do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias, o passado como se tivesse sido agora, o presente como um contínuo sem princípio nem fim, mas, por muito que se esforcem os autores, uma habilidade não podem cometer, pôr por escrito, no mesmo tempo, dois casos no mesmo tempo acontecidos.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) diga-se, em todo o caso, que seria muito interessante, além de educativo, sermos uma vez por outra espreitadores de nós próprios, provavelmente não gostaríamos.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“E aqueles espectadores sensíveis, que ainda os há, aqueles que por um nada se põem a lacrimejar e a disfarçar o nó da garganta, esses fizeram o de costume quando não se pode aguentar mais, diante da fome em África e outras calamidades, desviaram os olhos.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) é bem certo que as palavras nunca estão à altura da grandeza dos momentos.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) é grande falta de sensibilidade dos desenhadores topógrafos, aposto que da terra deles nunca se esqueceram, de futuro lembrem-se do vexame que é ir uma pessoa ao mapa ver se está lá o lugar onde veio ao mundo e encontrar um espaço em branco, vazio, desta maneira é que se têm gerado gravíssimos problemas de identidade pessoal e nacional.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“Em as várias artes, e por excelência nessa de escrever, o melhor caminho entre dois pontos, ainda que próximos, não foi, e não será, e não é a linha a que chamam recta, nunca por nunca ser, modo este enérgico e enfático de responder a dúvidas, calando-as.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) em verdade os povos são inconscientes, lançam-nos numa jangada ao mar e continuam a tratar das vidas como se estivessem numa terra firme para todo o sempre, palrando como Moisés quando descia o Nilo na condessinha de verga, a brincar com as borboletas, com tanta sorte que não o viram os crocodilos.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) E nós ficávamos a ver navios, comentou um português, os outros julgaram ter entendido que os navios de que ele falava eram os que fossem passando no novo canal, ora, só nós, portugueses, é que sabemos que são muito outros esses tais barcos, levam carga de sombras, de anelos, de frustrações, de enganos e desenganos, atestados os porões, Homem ao mar, gritaram, e ninguém lhe acudiu.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) enquanto um único querer não prevalece perturba-se o conjunto e confunde-se o itinerário.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) e o pensamento calou-se, cala-se sempre quando a vontade é firme.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) é para isto que o silêncio verdadeiramente serve, para que possamos ouvir o que se diz não ter importância.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) era isto ao entardecer, quando o rumor das ondas mal se ouve, breve e contido como um suspiro sem causa.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) esse é um dos efeitos do tempo, apagar (...)”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) Faz favor, mágicas palavras que substituem identificação formal, a linguagem está cheia destes e de outros mais difíceis enigmas.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) Fica sabendo que a mais fácil das coisas difíceis do mundo seria salvar Veneza (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) há momentos em que mesmo o amor deve conformar-se com a sua insignificância (...)”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) isto diziam os pecadores arrependidos, que sempre exageram.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) limitara-se a perguntar, quem julgue que isso é o mais fácil está muito enganado, não tem conta o número de respostas que só está à espera das perguntas.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“Mas é verdade que há diferenças de mundo para mundo, toda a gente sabe que em Marte os homens são verdes, enquanto na Terra os há de todas as cores, menos essa.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) mas foi sol de pouca dura, era então a noite dos tempos.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“Muito mais e muito melhor que as boas lições, sempre prosperaram e frutificaram os maus exemplos, e não se sabe por que aceleradas vias usam-se transmitir-se (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) Na nossa vida nunca roubamos nada, é sempre na vida dos outros (...)”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) não ficou uma alma viva. As mortas, porque tinham morrido, deixaram-se ficar, com aquela inabalável indiferença que as distingue da restante humanidade.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) não há rancor nas crianças, é o que as salva (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) não percebiam o que se passava, ou tinham uma ideia vaga, formada apenas de palavras cujo sentido se compreendera por metade, ou nem isso, tão inseguramente que não se acharia grande diferença entre o que um julgava e o que o outro ignorava.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) Não quero entrar em vãs filosofias, mas responda-me se vê alguma ligação entre o facto de um macaco ter descido de uma árvore há vinte milhões de anos e a fabricação de uma bomba nuclear, A ligação é, precisamente, esses vinte milhões de anos (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) Não sei, e o resto seria igual, com algumas variantes, mas mínimas, sobretudo formais, mas aí mesmo se deveria acautelar, porque, como se sabe, pela forma se chega ao fundo, pelo continente ao conteúdo, pelo som da palavra ao significado dela.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) Nas perguntas que fazes é que mentes, se já sabias antes a resposta (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) nos grandes momentos precisamos sempre de grande frases, e esta, Estava escrito, não sabemos que prestígio tem que ocupa o primeiro lugar nos prontuários do estilo fatal.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“O erro é só nosso, com este gosto de drama e tragédia, esta necessidade de coturno e gesto largo, maravilhamo-nos, por exemplo, diante de um parto, aquela azáfama de suspiros e gemidos, e gritos, o corpo que se abre como um figo maduro e lança para fora outro corpo, e isso é maravilha, sim senhor, mas não menor maravilha foi o que não pudemos ver, a ejaculação ardente dentro da mulher, a maratona mortífera, e depois a fabricação lentíssima de um ser por si próprio, é certo que com ajudas, esse que será, para não irmos mais longe, este que isto escreve, irremediavelmente ignorante do que lhe aconteceu então e também, confessemo-lo, não muito sabedor do que lhe acontece agora.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“O instinto conduz este cão, mas não sabemos o quê ou quem conduz o destino (...)”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) o que conta é o momento, nós apenas o servimos (...)”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) o que eu muito gostaria de saber é como ele (o mundo) será quando não houver homens e os efeitos que só eles causam, o melhor é nem pensar em tal imensidão, que faz tonturas, ora, bastará que sobrevivam uns animaizitos (...), afinal, a única grande verdade é que o mundo não pode ser morto.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) os outros assistiram de longe, em casa, no teatro doméstico que é a televisão, no pequeno retângulo de vidro, esse pátio de milagres onde uma imagem varre a anterior sem deixar vestígios, tudo em escala reduzida, mesmo as emoções.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“Passados quinze minutos, que, segundo a frase, pareceram quinze séculos, embora ninguém ainda tivesse vivido estes para comparar com aqueles (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) pois quem nasce não vem a falar da barriga da mãe, e quem morre não fala depois de ter entrado na barriga da terra.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) por cima das árvores apareceu o primeiro alvor da lua, agora terão as estrelas de apagar-se.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“Porém, conjunção coordenada adversativa que sempre anuncia oposição, restrição ou diferença, e que, aplicada ao caso, vem lembrar que mesmo as boas coisas para uns precisamente têm os seus poréns para outros (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) por enquanto há uma brisa fresca e límpida, lástima não poder guardá-la no bolso para quando viesse a ser precisa na hora do calor.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) para observar a que extremo foram omissos, por exemplo, os evangelistas quando se limitaram a escrever que Jesus amaldiçoou a figueira, parece que deveria a informação bastar-nos e não basta, não senhor, afinal, vinte séculos passados, ainda não sabemos se a árvore desgraçada dava figos brancos ou pretos, lampos ou serôdios, de capa-rota ou pingo-de-mel, não que com a falta esteja padecendo a ciência cristã, mas a verdade histórica seguramente sofre.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“Pensando bem, não há um princípio para as coisas e para as pessoas, tudo o que um dia começou tinha começado antes, a história desta folha de papel, tomemos o exemplo mais próximo das mãos, para ser verdadeira e completa, teria de ir remontando até aos princípios do mundo, de propósito se usou o plural em vez do singular, e ainda assim duvidemos, que esses princípios princípios não foram, somente pontos de passagem, rampas de escorregamento, pobre cabeça a nossa, sujeita a tais puxões, admirável cabeça, apesar de tudo, que por todas as razões é capaz de enlouquecer, menos por essa.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“Quantas vezes, para mudar a vida, precisamos da vida inteira, pensamos tanto, tomamos balanço e hesitamos, depois voltamos ao princípio, tornamos a pensar e a pensar, deslocamo-nos nas calhas do tempo com um movimento circular, como os espojinhos que atravessam o campo levantando poeira, folhas secas, insignificâncias, que para mais não lhes chegam as forças, bem melhor seria vivermos em terra de tufões.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) que não pensassem mais neles, que se lhes tinha mudado o mundo, e a vida, não tinham culpa, em geral eram pessoas de vontade fraca, daquelas que vão adiando decisões, estão sempre a dizer amanhã, amanhã, mas isto não significa que não tenham sonhos e desejos, o mau é morrerem antes de poderem e saberem viver deles alguma pequena parte.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) ressecam e morrem as plantas, depois renascem e vivem, o homem é que ainda não conseguiu aprender como se repetem os ciclos, com ele é uma vez para nunca mais.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“Sabido é que todo efeito tem sua causa, e esta é uma universal verdade, porém, não é possível evitar alguns erros de juízo, ou de simples identificação, pois acontece considerarmos que este efeito provém daquela causa, quando afinal ela foi outra, muito fora do alcance do entendimento que temos e da ciência que julgávamos ter.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) Se eu a não vir, é porque ela nunca existiu, afinal tem inteira razão Roque Lozano, que para que as coisas existam duas condições são necessárias, que homem as veja e homem lhes ponha nome.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) se não pensara nas conseqüências de um acto que parecia não ter sentido, e esses, recordai-vos, são os que maior perigo comportam (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) Se um dia tiveres um filho, ele morrerá porque tu nasceste, desse crime ninguém te absolverá, as mãos que fazem e tecem são as mesmas que desfazem e destecem, o certo gera o errado, o errado produz o certo, Fraca consolação para um aflito, Não há consolação, amigo triste, o homem é um animal inconsolável.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) supondo que não é incorreto usar medidas geralmente de dinheiro em aferições de tempo, tendo em conta que um não compra o outro e este altera o valor daquele.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) talvez a vida goste de cultivar, uma vez por outra, o sentido do dramático, se o telefone toca pensamos, Que será, se à porta nos batem pensamos, Quem será, e damos ao pensamento voz perguntando, Quem é.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) tão certo como haver realmente destino.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) tem raízes no inferno, que, como sabemos, é o lugar aonde vai dar toda a sabedoria (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) uma palavra, quando dita, dura mais que o som e os sons que a formaram, fica por aí, invisível e inaudível para poder guardar o seu próprio segredo (...).”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) um remorso vivo, que é o que são os remorsos mesmo depois de mortos.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“(...) vê-se-lhe o princípio, não se lhe conhece o fim, é como a vida.”
(José Saramago, no livro “A Jangada de Pedra”)



“Não achou resposta, as respostas não vêm sempre que são precisas, e mesmo sucede muitas vezes que ter de ficar simplesmente à espera delas é a única resposta possível.”
(José Saramago, no livro "Ensaio Sobre a Cegueira")



“(...), é extraordinário como se formam um homem e uma mulher, indiferentes, lá dentro do seu ovo, ao mundo de fora, e contudo com este mundo mesmo se virão defrontar, como rei ou soldado, como frade ou assassino, (...), alguma coisa sempre, que tudo nunca pode ser, e nada menos ainda. Porque, enfim, podemos fugir de tudo, não de nós próprios.”
(José Saramago, no livro "Memorial do Convento")



“A fama, ai de nós, é um ar que tanto vem como vai, é um cata-vento que tanto gira ao norte como ao sul, e tal como sucede passar uma pessoa do anonimato à celebridade sem perceber porquê, também não é raro que depois de ter andado a espanejar-se à calorosa aura pública acabe sem saber como se chama.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) aliás, a pele é tudo quanto queremos que os outros vejam de nós, por baixo dela nem nós próprios conseguimos saber quem somos (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“A metáfora sempre foi a melhor forma de explicar as coisas.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) As consciências calam-se mais do que deviam, por isso é que se criaram as leis (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) A solidão, Sr. José, declarou com solenidade o conservador, nunca foi boa companhia, as grandes tristezas, as grandes tentações e os grandes erros resultam quase sempre de se estar só na vida (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) a tal ponto exigente parece ser esta nossa necessidade de ir pelo mundo a dizer quem somos, mesmo quando acabamos de ouvir, Ah, é você, como se por nos terem reconhecido nos conhecessem e não houvesse mais nada a saber de nós, ou o pouco que ainda restasse não merecesse o trabalho de uma pergunta nova.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) a vida tinha-lhe ensinado que a melhor maneira de defender os segredos próprios ainda é guardar respeito aos segredos alheios (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) Dar razões para o que se faz ou deixa de fazer é o que há de mais fácil, quando percebemos que as não temos ou não as temos suficientes tratamos de inventá-las (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“Em geral não se diz que uma decisão nos aparece, as pessoas são tão zelosas da sua identidade, por vaga que seja, e da sua autoridade, por pouca que tenham, que preferem dar-nos a entender que reflectiram antes de dar o último passo, que ponderaram os prós e os contras, que sopesaram as possibilidades e as alternativas, e que, ao cabo de um intenso trabalho mental, tomaram finalmente a decisão. Há que dizer que estas coisas nunca se passaram assim.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) e não prestamos atenção, sempre o mais importante nos escapa.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) é por de mais sabido que o espírito humano, muitas vezes, toma decisões cujas causas mostra não conhecer, sendo de supor que o faz depois de ter percorrido os caminhos da mente com tal velocidade que depois não é capaz de os reconhecer e muito menos de os reencontrar.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) Este não pareço eu, pensou, e provavelmente nunca o havia sido tanto.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) É velha, É uma senhora de idade, Deixa-te de hipocrisias, idade temo-la nós todos, a questão está em saber-se quanta, se é pouca, és novo, se é muita, és velho, o resto é conversa (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) Homem, não tenhas medo, a escuridão em que estás metido aqui não é maior do que a que existe dentro do teu corpo, são duas escuridões separadas por uma pele (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) mas sabendo nós, enfim, que o que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca e que é preciso andar muito para alcançar o que está perto.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“Na Conservatória Geral não era assim, na Conservatória Geral só existiam palavras, na Conservatória Geral não se podia ver como tinham mudado e iam mudando as caras, quando o mais importante era precisamente isso, o que o tempo faz mudar, e não o nome, que nunca varia.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) Não faça caso, são disparates da minha cabeça, quando chegamos a velhos e percebemos que se nos está a acabar o tempo, dá-nos para imaginar que temos na mão o remédio de todos os males do mundo e desesperamos por não nos prestarem atenção (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) não falta mesmo quem sustente que Deus, antes de se pôr a amassar o barro com que depois os fabricou, começou por desenhar com um pau de giz o homem e a mulher na superfície da primeira noite, daí é que nos veio a única certeza que temos, a de que fomos, somos e seremos pó, e que em uma noite tão profunda como aquela nos perderemos.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) na vida todos os cuidados são poucos, mormente quando se abandonam as vias rectas do proceder honesto para enveredar pelos atalhos tortuosos do crime.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) no casamento existem três pessoas, há a mulher, há o homem, e há o que chamo a terceira pessoa, a mais importante, a pessoa que é constituída pelo homem e pela mulher juntos (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“O espírito humano, porém, quantas vezes será preciso dizê-lo, é o lugar predilecto das contradições, aliás nem se tem observado ultimamente que elas prosperem ou simplesmente tenham condições de existência viáveis fora dele (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“Ou não está, ou são os seus olhos que se recusam a ver.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) os pesadelos da infância nunca se realizam, muito menos se realizam os sonhos (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) perdoai-vos uns aos outros, como é costume dizer-se, A frase conhecida não é assim, é amai-vos uns aos outros, Dá no mesmo, perdoa-se porque se ama, ama-se porque se perdoa (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) por quantos sofrimentos têm de passar as pessoas que saíram da tranquilidade dos seus lares para se meterem em loucas aventuras.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“Quanto aos pensamentos metafísicos, meu caro senhor, permita-me que lhe diga que qualquer cabeça é capaz de os produzir, o que muitas vezes não consegue é encontrar as palavras.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) que as vidas são como os quadros, precisaremos sempre de olhá-las quatro passos atrás (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) Quem somos nós para falar de consequências, se da fila interminável delas que incessantemente vêm caminhando na nossa direção apenas podemos ver a primeira (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) Se dorme mal, é porque está doente, uma pessoa saudável dorme sempre bem, a não ser que tenha algum peso na consciência, uma falta censurável, daquelas que a consciência não perdoa, a consciência é muito importante (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) simplesmente recebo ordens, Então só tem de cumpri-las, Engana-se, tenho de fazer muito mais do que cumpri-las, tenho de interpretá-las, Porquê, Porque entre o que ele manda e o que ele quer há geralmente diferença (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) Só a partir dos setenta é que se tornará sábio, mas então de nada lhe vai servir, nem a si nem a ninguém.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) Só porque vivemos absortos é que não reparamos que o que nos vai acontecendo deixa intacto, em cada momento, o que nos pode acontecer (…)”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) tirando acontecimentos excepcionais, em todo o caso não tão excepcionais quanto isso, como sejam as catástrofes naturais ou os conflitos bélicos, não é costume verem-se nas ruas os mortos misturados com os vivos.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“(…) Toma as minhas metáforas a sério, se quiseres, mas não as repitas como se fossem tuas.”
(José Saramago, no livro “Todos os Nomes”)



“— Não sei bem o que o senhor entende por 'glória' — disse Alice.
Humpty Dumpty sorriu com desdém. — Claro que você não sabe, até eu lhe dizer. O que eu quero dizer é: 'eis aí um argumento arrasador para você'.
— Mas 'glória' não significa 'um argumento arrasador' — objetou Alice.
— Quando uso uma palavra — disse Humpty Dumpty em tom escarninho —, ela significa exatamente aquilo que quero que ela signifique... nem mais nem menos.
— A questão — ponderou Alice — é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes.
— A questão — replicou Humpty Dumpty — é saber quem é que manda. É só isso.”
(Lewis Carroll, no livro “Alice no País das Maravilhas”)



“Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens.”
(Livro das Evidências)



“O amor tem mil inimigos, mas o pior deles é o tempo.”
(Luís Fernando Veríssimo, no conto “Inimigos”)



“Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada.”
(Machado de Assis, no conto “A Cartomante”)



“(...) a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.”
(Machado de Assis, no conto “A Cartomante”)



“Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama.”
(Machado de Assis, no conto “A Cartomante”)



“Mas o desejo de servir tem mil maneiras de se manifestar.”
(Machado de Assis, no conto “Almas Agradecidas”)



“Qual importa mais à vida, ser Dom Quixote ou Sancho Pança? O ideal ou o prático? A generosidade ou a prudência? Oliveira não hesitava entre esses dois opostos papéis; nem sequer pensara neles. Estava no período do coração.”
(Machado de Assis, no conto “Almas Agradecidas”)



“Almoçou pouco. O estômago acompanhava a dor do coração.”
(Machado de Assis, no conto “Almas Agradecidas”)



“(...) um ministro é muitas vezes um amanuense do destino, que só parece ocupar-se em me perturbar a vida e multiplicar todos os esforços. Que queres? Eu já estou acostumado, não resisto; dia virá em que estes golpes terão um termo. Dia virá em que eu possa vencer a má fortuna de uma vez para sempre. Tenho o remédio nas mãos.”
(Machado de Assis, no conto “Almas Agradecidas”)



“A gratidão de quem recebe um benefício é sempre menor que o prazer daquele que o faz (...). A explicação desta diferença está talvez neste fundo de egoísmo que há em todos nós.”
(Machado de Assis, no conto “Almas Agradecidas”)



“(...) suspiras em silêncio e queres que ela te adivinhe. Nunca chegarás ao cabo. Tem-se comparado o amor à guerra. Assim é. No amor, querem-se atos de bravura como na guerra. Avança afoitamente e vencerás.”
(Machado de Assis, no conto “Almas Agradecidas”)



“— Não te zangues, disse Magalhães. Eu não sou nenhum espírito rasteiro; também, conheço as delicadezas do coração. Nada vale mais que um amor verdadeiro e desinteressado. Não se me há de censurar, porém, que eu procure ver o lado prático das coisas; um coração de ouro vale muito; mas um coração de ouro com ouro vale mais.
— Cecília é rica.
— Pois tanto melhor!”
(Machado de Assis, no conto “Almas Agradecidas”)



“O estouvamento na velhice é, por via de regra, um senão.”
(Machado de Assis, no conto “Almas Agradecidas”)



“D. Mariana, antes de casar, professava um princípio seu: o casamento é um estado vitalício; cumpre não precipitar a escolha do noivo.”
(Machado de Assis, no conto “Almas Agradecidas”)



“Salvante a barriga, Vasconcelos era ainda um belo velho, uma ruína magnífica.”
(Machado de Assis, no conto “Almas Agradecidas”)



“Quando o acusavam deste ceticismo político, respondia com uma frase que, se não discriminava as suas opiniões, abonava o seu patriotismo:
— Somos todos brasileiros.”
(Machado de Assis, no conto “Almas Agradecidas”)



“— O senhor está brincando comigo?
— Brincando! disse Magalhães. Tudo quanto quiser, menos isso; não se brinca com o amor ou o sofrimento.”
(Machado de Assis, no conto “Almas Agradecidas”)



“Eu peço perdão aos meus leitores, se entro nestas explicações a respeito da comida.
Quer-se um herói romântico, acima das necessidades vulgares da vida humana; mas não posso deixar de as mencionar, não por sistema, mas por ser fiel à história que estou contando.”
(Machado de Assis, no conto “Almas Agradecidas”)



“Mas é nas grandes crises que o espírito do homem se mostra grande.”
(Machado de Assis, no conto “Almas Agradecidas”)



“Parece que há duas sortes de vocação, as que têm língua e as que a não tem. As primeiras realizam-se; as últimas representam uma luta constante e estéril entre o impulso interior e a ausência de um modo de comunicação com os homens.”
(Machado de Assis, no conto “Cantiga de Esponsais”)



“Entro no teto conjugal como num túmulo, escrevia Carolina na manhã do casamento à amiga Lúcia; deixo as minhas ilusões à porta, e peço a Deus que não perca só isso.”
(Machado de Assis, no conto “Carolina”)



“Tive uma sensação esquisita. Não é que eu possuísse da virtude uma ideia antes própria de homem; não é também que não fosse fácil em empregar uma ou outra mentira de criança.”
(Machado de Assis, no conto “Conto de Escola”)



“Quero entranhar-me no mundo da reflexão e do estudo, mas o meu coração, solteiro talvez, talvez viúvo, pede-me versos ou imaginações. Triste alternativa, que para nenhuma resolução me guia! Este estado, tão comum nos que realmente se dividem entre sentir e pensar, é uma dor d'alma, é uma agonia do espírito.”
(Machado de Assis, no conto “Felicidade pelo Casamento”)



“Ânsia de amar, ânsia de ser feliz, que haverá no mundo que mais nos envelheça a alma e nos faça sentir as misérias da vida? Nem é outra a miséria: esta, sim, este ermo e estas aspirações; esta solidão e estas saudades; esta tão própria sede de uma água que não há tirá-la de nenhuma Noreb, eis a miséria, eis a dor, eis a tristeza, eis o aniquilamento do espírito e do coração.”
(Machado de Assis, no conto “Felicidade pelo Casamento”)



“Do semear depende a colheita. Mas que terra é esta que tanto gasta em restituir o que se lhe confiou?”
(Machado de Assis, no conto “Felicidade pelo Casamento”)



“Volta-se de um amor, escreve um humorista, como de um fogo de artifício: triste e aborrecido.”
(Machado de Assis, no conto “Felicidade pelo Casamento”)



“É certo que as naturezas capazes de resistir ao choque das paixões humanas são inteiramente raras. O mundo regurgita de almas melindrosas, que, como a sensitiva dos campos, se contraem e murcham ao menor contato. Sair salvo e rijo dos combates da vida é caso de rara superioridade.”
(Machado de Assis, no conto “Felicidade pelo Casamento”)



“Vi muita gente boquiaberta diante das vidraças da rua do Ouvidor, manifestando no olhar o mesmo entusiasmo que eu quando contemplava os meus rios e as minhas palmeiras. Lembrei-me com saudade das minhas antigas diversões, mas tive o espírito de não condenar aquela gente. Nem todos podem compreender os encantos da natureza, a maioria dos epíritos só se nutrem de quinquilharias francesas. Agradeci a Deus não me ter feito assim.”
(Machado de Assis, no conto “Felicidade pelo Casamento”)



“Os homens medíocres caem facilmente neste engano de confundir com a paixão amorosa o que muitas vezes não passa de uma simples feição do espírito da mulher. E este equívoco dá-se sempre com os espíritos medíocres, porque são os mais presunçosos e os que andam na plena convicção de conhecerem todos os escaninhos do coração humano. Pouca que seja embora a prática que eu tenho do mundo, o pouco que tenho visto, e algo que tenho lido, o muito que tenho refletido, deu-me lugar a poder tirar esta conclusão.”
(Machado de Assis, no conto “Felicidade pelo Casamento”)



“Eu não tinha a ciência de entreter horas sobre coisas indiferentes, em conversa com uma pessoa que me não era indiferente.”
(Machado de Assis, no conto “Felicidade pelo Casamento”)



“Esta dúvida era pior que a certeza.”
(Machado de Assis, no conto “Felicidade pelo Casamento”)



“— Acaso nunca pensaste em ser homem político?
— Oh! nunca! respondeu o bacharel espantado com a pergunta. Por que razão pensaria eu na política?
— Pela mesma razão por que outros pensam...
— Mas eu não tenho vocação.
— A vocação faz-se.”
(Machado de Assis, no conto “Longe dos Olhos”)



“João Aguiar deu uma gargalhada. O pai pareceu rir também, mas reparando bem não era um riso, era uma careta.”
(Machado de Assis, no conto “Longe dos Olhos”)



“Mas tu não vês a impossibilidade de semelhante coisa? Impossível, não digo que seja; tudo pode acontecer neste mundo, se a natureza o pede. Mas a sociedade tem suas leis que não devemos violar, e segundo elas esse casamento é impossível.”
(Machado de Assis, no conto “Longe dos Olhos”)



“Tudo se pode vencer, disse ele; o que é preciso é ser constante.”
(Machado de Assis, no conto “Longe dos Olhos”)



“Graças a este equívoco, os dois podiam repetir essas doces práticas em que cada um ouvia o seu próprio coração e falava do objeto escolhido por ele. Não era um diálogo, eram dois monólogos (...).”
(Machado de Assis, no conto “Longe dos Olhos”)



“(...) está-me a parecer que a felicidade que sonhamos quase nunca sai à medida dos nossos desejos, e que mais vale uma quimera que uma realidade.”
(Machado de Assis, no conto “Longe dos Olhos”)



“Talvez tenha razão, disse ele enfim, a realidade não será sempre tal qual a sonhamos. Mas isto mesmo é uma harmonia da vida, é uma grande perfeição do homem. Se víssemos logo a realidade como ela há de ser quem daria um passo para ser feliz?...”
(Machado de Assis, no conto “Longe dos Olhos”)



“— A desconfiança é o único defeito dele, dizia Serafina ao filho do comendador; mas é grande (...). Preferia que o defeito fosse outro.
— Outro qual?
— Outro qualquer. A desconfiança é uma triste companheira; arreda toda a felicidade.”
(Machado de Assis, no conto “Longe dos Olhos”)



“Não há dor eterna.”
(Machado de Assis, no conto “Longe dos Olhos”)



“No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.”
(Machado de Assis, no conto “Missa do Galo”)



“Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“— A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.
— Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“(...) achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“(...) e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“Não há remédio certo para as dores da alma.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“Crispim Soares, ao tornar a casa, trazia os olhos entre as duas orelhas da besta ruana em que vinha montado; Simão Bacamarte alongava os seus pelo horizonte adiante, deixando ao cavalo a responsabilidade do regresso. Imagem vivaz do gênio e do vulgo! Um fita o presente, com todas as suas lágrimas e saudades, outro devassa o futuro com todas as suas auroras.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“(...) trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“O atrevimento foi grande, pensaram as duas damas. E uma e outra pediam a Deus que removesse qualquer episódio trágico - ou que o adiasse ao menos para o dia seguinte. Sim, que o adiasse.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“Uma vez, por exemplo, compôs uma ode à queda do Marquês de Pombal, em que dizia que esse ministro era o 'dragão aspérrimo do Nada' esmagado pelas 'garras vingadoras do Todo'.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“Nada tenho que ver com a ciência; mas, se tantos homens em que supomos juízo, são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“(...) não achou Crispim Soares outra saída em tal crise senão adoecer; declarou-se doente e meteu-se na cama.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“O povo, tomado de uma cega piedade que lhe dá em tal caso legítima indignação, pode exigir do governo, certa ordem de atos; mas este, com a responsabilidade que lhe incumbe , não os deve praticar, ao menos integralmente, e tal é a nossa situação. A generosa revolução que ontem derrubou uma câmara vilipendiada e corrupta, pediu em altos brados o arrasamento da Casa Verde, mas pode entrar no ânimo do governo eliminar a loucura? Não. E se o governo não a pode eliminar, está ao menos apto para discriminá-la, reconhecê-la? Também não, é matéria de ciência. Logo, em assunto tão melindroso, o governo não pode, não quer dispensar o concurso de Vossa Senhoria (o alienista Simão Bacamarte). O que lhe pede é que de certa maneira demos alguma satisfação ao povo. Unamo-nos, e o povo saberá obedecer.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“(...) o terror também é pai da loucura.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“Ele respeitava os namorados e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural e as segundas a um vício.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“João Pina foi absolvido, atendendo-se a que ele derrocara um rebelde. Os cronistas pensam que deste fato é que nasceu o nosso adágio: - ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão; - adágio imoral, é verdade, mas grandemente útil.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“(...) a prudência é a primeira das virtudes em tempos de revolução (...).”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“A vereança, concluiu ele, não nos dá nenhum poder especial nem nos elimina do espírito humano.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“A aflição do egrégio Simão Bacamarte é definida pelos cronistas itaguaienses como uma das mais medonhas tempestades morais que têm desabado sobre o homem. Mas as tempestades morais só aterram os fracos; os fortes enrijam-se contra elas e fitam o trovão.”
(Machado de Assis, no conto “O Alienista”)



“— Trago-lhe o grande homem que há de ser, disse ele ao reitor.
— Venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que seja também humilde e bom. A verdadeira grandeza é chã.”
(Machado de Assis, no conto “O Caso da Vara”)



“Disse-lhe que era preciso tirar o moço do seminário, que ele não tinha vocação para a vida eclesiástica, e antes um padre de menos que um padre ruim.”
(Machado de Assis, no conto “O Caso da Vara”)



“Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.”
(Machado de Assis, no conto “Um Apólogo”)



“Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. Contei esta hitória a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!”
(Machado de Assis, no conto “Um Apólogo”)



“O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não aguenta tinta.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Verdade é que cada um sabe melhor de si.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Prazos largos são fáceis de subscrever; a imaginação os faz infinitos.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Que as pernas também são pessoas, apenas inferiores aos braços, e valem de si mesmas, quando a cabeça não as rege por meio de ideias.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Há coisas que só se aprendem tarde; é mister nascer com elas para fazê-las cedo. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida!”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Creio que prima Justina achou no espetáculo das sensações alheias uma ressurreição vaga das próprias. Também se goza por influição dos lábios que narram.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Os sonhos do acordado são como os outros sonhos, tecem-se pelo desenho das nossas inclinações e das nossas recordações.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Assim, apanhados pela mãe, éramos dois e contrários, ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Talvez abuso um pouco das reminiscências osculares; mas a saudade é isto mesmo; é o passar e repassar das memórias antigas.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Padre Cabral estava naquela primeira hora das honras em que as mínimas congratulações valem por odes. Tempo chega em que os dignificados recebem os louvores como um tributo usual, cara morta, sem agradecimentos.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Quantas intenções viciosas há assim que embarcam, a meio caminho, numa frase inocente e pura! Chega a fazer suspeitar que a mentira é muita vez tão involuntária quanto a transpiração.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“(...) as contradições são deste mundo.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“(...) a mentira é dessas criadas que se dão pressa em responder às visitas que 'a senhora saiu', quando a senhora não quer falar a ninguém. Há nessa cumplicidade um gosto particular; o pecado em comum iguala por instantes a condição das pessoas, não contando o prazer que dá a cara das visitas enganadas, e as costas com que elas descem...”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Há pessoas a quem as lágrimas não acodem logo nem nunca; diz-se que padecem mais que as outras.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“A alopatia é o erro dos séculos, e vai morrer; é o assassinato, é a mentira, é a ilusão.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Foram cócegas da mocidade; coçou-se, passou, estava bom.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até ao fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. Também as há fechadas e escuras, sem janelas, ou com poucas e gradeadas, às semelhanças de conventos e prisões. Outrossim, capelas e bazares, simples alpendres ou paços suntuosos.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos (...).
É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Há alguma exageração nisto; mas o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória, chegaremos à exata verdade.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Antes de concluir este capítulo, fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Em tudo isso mostrava a minha amiga tanta lucidez que eu bem podia deixar de citar um terceiro exemplo, mas os exemplos não se fizeram senão para ser citados, e este é tão bom que a omissão seria um crime.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Minha mãe, depois que lhe respondi às mil perguntas que me fez sobre o tratamento que me davam, os estudos, as relações, a disciplina, e se me doía alguma coisa, e se dormira bem, tudo o que a ternura das mães inventa para cansar a paciência de um filho, concluiu (...).”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Tanto melhor para a justiça dela; o louvor dos mortos é um modo de orar por eles.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Não precisa correr tanto; o que tiver de ser seu às mãos lhe há de ir.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“O anseio de escutar a verdade complicava-se em mim com o temor de a saber.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“(...) nada há mais feio que dar pernas longuíssimas a ideias brevíssimas.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Ora, há só um modo de escrever a própria essência, é contá-la toda, o bem e o mal.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“No fim, lembrou-me que a Igreja estabeleceu no confessionário um cartório seguro, e na confissão o mais autêntico dos instrumentos para o ajuste de contas morais entre o homem e Deus. Mas a minha incorrigível timidez me fechou essa porta certa; receei não achar palavras com que dizer ao confessor o meu segredo. Como o homem muda! Hoje chego a publicá-lo.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Nem eu, nem tu, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais, tão certo é que o destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam a seu tempo, até que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores vão dormir.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“O destino não é só dramaturgo, é também o seu próprio contrarregra, isto é, designa a entrada das personagens em cena, dá-lhes as cartas e outros objetos, e executa dentro os sinais correspondentes ao diálogo, uma trovoada, um carro, um tiro.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Um dos erros da Providência foi deixar ao homem unicamente os braços e os dentes, como armas de ataque, e as pernas como armas de fuga ou de defesa. Os olhos bastavam ao primeiro efeito. Um mover deles faria parar ou cair um inimigo ou um rival, exerceriam vingança pronta, com este acréscimo que, para desnortear a justiça, os mesmos olhos matadores seriam olhos piedosos, e correriam a chorar a vítima.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor, desde que a matéria não me agrava, aborrece ou impõe.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Mas onde a perfeição é maior é no emprego do zero. O valor do zero é, em si mesmo, nada; mas o ofício deste sinal negativo é justamente aumentar. Um 5 sozinho é um 5; ponha-lhe dois 00, é 500. Assim, o que não vale nada faz valer muito, coisa que não fazem as letras dobradas, pois eu tanto 'aprovo' com um p como com dois pp.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Isso prova que as ideias aritméticas são mais simples, e portanto mais naturais. A natureza é simples. A arte é atrapalhada.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“(...) a vaidade é um princípio de corrupção.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Ao certo, ninguém sabe se há de manter ou não um juramento.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“(...) dizia o rei que os bons amigos deviam ficar longe uns dos outros, não perto, para se não zangarem como as águas do mar que batiam furiosas no rochedo que eles viam dali.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)




“(...) os que amam a natureza como ela quer ser amada, sem repúdio parcial nem exclusões injustas, não acham nela nada inferior.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Tudo acaba, leitor; é um velho truísmo, a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura dura muito tempo.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“(...) não é só o céu que dá as nossas virtudes, a timidez também, não contando o acaso, mas o acaso é um mero acidente; a melhor origem delas é o céu. Entretanto, como a timidez vem do céu, que nos dá a compleição, a virtude, filha dela, é, genealogicamente, o mesmo sangue celestial.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“As pessoas valem o que vale a afeição da gente, e é daí que mestre Povo tirou aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe parece.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“Mas o que pudesse dissimular ao mundo, não podia fazê-lo a mim, que vivia mais perto de mim que ninguém.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“A vida é tão bela que a mesma ideia da morte precisa de vir primeiro a ela, antes de se ver cumprida.”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“A doença foi rápida. Mandei chamar um médico homeopata.
— Não, Bentinho - disse ele -; basta um alopata; em todas as escolas se morre. Demais, foram ideias da mocidade, que o tempo levou; converto-me à fé de meus pais. A alopatia é o catolicismo da medicina...”
(Machado de Assis, no livro “Dom Casmurro”)



“E ambos pararam a distância, tomados daquele invencível desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“Tinham fé, mas tinham também vexame da opinião, como um devoto que se benzesse às escondidas.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“Há contradições explicáveis.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“(...) eu sei como as cousas se passaram, e refiro-as tais quais. Quando muito, explico-as, com a condição de que tal costume não pegue. Explicações comem tempo e papel, demoram a ação e acabam por enfadar. O melhor é ler com atenção.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“A conclusão é que, por uma ou por outra porta, amor ou vaidade, o que o embrião quer é entrar na vida. César ou João Fernandes, tudo é viver, assegurar a dinastia e sair do mundo o mais tarde que puder.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“Talvez essas razões não fossem propriamente dele, mas ouvidas a alguém, decoradas sem esforço e repetidas com convicção.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“Tinha o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“(...) tinha que nas controvérsias uma opinião dúbia ou média pode trazer a oportunidade de uma pílula, e compunha as suas de tal jeito, que o enfermo, se não sarava, não morria, e é o mais que fazem pílulas.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“O que o berço dá só a cova o tira, diz um velho adágio nosso.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“As ideias querem-se festejadas, quando são belas, e examinadas, quando novas.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“No princípio era o amor, e o amor se fez carne.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“(...) o tempo é um rato roedor das cousas, que as diminui ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“Há, nos mais graves acontecimentos, muitos pormenores que se perdem, outros que a imaginação inventa para suprir os perdidos, e nem por isso a história morre.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“... o tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“Paga o que deves, vê o que te não fica.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“Esta necessidade de capturar o tempo é uma necessidade da alma e dos queixos; mas ao tempo dá Deus habeas-corpus.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“O mal calado não se muda, mas não se sabe.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“Nem sempre os filhos reproduzem os pais. Camões afirmou que de certo pai só se podia esperar tal filho, e a Ciência confirma essa regra poética. Pela minha parte creio na Ciência como na Poesia, mas há exceções, amigo. Sucede, às vezes, que a natureza faz outra cousa, e nem por isso as plantas deixam de crescer e as estrelas de luzir. O que se deve crer sem erro é que Deus é Deus; e, se alguma rapariga árabe me estiver lendo, ponha-lhe Alá. Todas as línguas vão dar ao céu.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“Mas tudo cansa, até a solidão.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“Há frases assim felizes. Nascem modestamente, como a gente pobre; quando menos pensam, estão governando o mundo, à semelhança das ideias. As próprias ideias nem sempre conservam o nome do pai; muitas aparecem órfãs, nascidas de nada e de ninguém. Cada um pega delas, verte-as como pode, e vai levá-las à feira, onde todos as têm por suas.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“— Então crê que Paulo será sempre isto?
— Sempre, não digo; também não digo o contrário. Baronesa, a senhora exige respostas definitivas, mas diga-me o que é que há definitivo neste mundo (...)?”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“(...) o homem, uma vez criado, desobedeceu logo ao Criador, que aliás, lhe dera um paraíso para viver; mas não há paraíso que valha o gosto da oposição. Que o homem se acostume às leis, vá; que incline o colo à força e ao bel-prazer, vá também; é o que se dá com a planta quando sopra o vento. Mas que abençoe a força e cumpra as leis sempre, sempre, sempre, é violar a liberdade primitiva, a liberdade do velho Adão.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“(...) finalmente o burro preferiu a marcha à pancada, tirou a carroça do lugar e foi andando.
Nos olhos redondos do animal viu Aires uma expressão profunda de ironia e paciência. Pareceu-lhe o gesto largo de espírito invencível. Depois leu neles este monólogo: 'Anda, patrão, atulha a carroça de carga para ganhar o capim de que me alimentas. Vive de pé no chão para comprar minhas ferraduras. Nem por isso me impedirás que te chame um nome feio, mas eu não te chamo nada; ficas sendo sempre o meu querido patrão. Enquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o teu domínio não vale muito, uma vez que me não tiras a liberdade de teimar'...”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“O discurso é que ele não esqueceu, mas quem é que esquece os discursos que faz? Se são bons, a memória os grava em bronze; se ruins, deixam tal ou qual amargor que dura muito. O melhor dos remédios, no segundo caso, é supô-los excelentes, e, se a razão não aceita esta imaginação, consultar pessoas que a aceitem, e crer nelas. A opinião é um velho óleo incorruptível.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Não vale a pena, moço; o que importa é que cada um tenha as suas ideias e se bata por elas, até que elas vençam. Agora que outros as interpretem mal é cousa que não deve afligir o autor.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“As virtudes devem ser grandes e as anedotas engraçadas. Também as há banais, mas a mesma banalidade na boca de um bom narrador faz-se rara e preciosa.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Pensando bem, não recusaria passar o Rubicon; só lhe faltava a força necessária. Quisera querer. Quisera não ver nada, nem passado, nem presente, nem futuro, não saber de homens nem de cousas, e obedecer aos dados da sorte, mas não podia.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Há dessas virtudes feitas de acanho e timidez, e nem por isso menos lucrativas, moralmente falando. Não valem só estoicos e mártires. Virtudes meninas também são virtudes.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Não é que ainda dançasse, mas sabia-lhe bem ver dançar os outros, e tinha agora a opinião de que a dança é um prazer dos olhos. Esta opinião é um dos efeitos daquele mau costume de envelhecer. Não pegues tal costume, leitora. Há outros, também ruins, nenhum pior, este é o péssimo. Deixa lá dizerem filósofos que a velhice é um estado útil pela experiência e outras vantagens. Não envelheças, amiga minha, por mais que os anjos te convidem a deixar a primavera; quando muito, aceita o estio. O estio é bom, cálido, as noites são breves, é certo, mas as madrugadas não trazem neblina, e o céu aparece logo azul. Assim dançarás sempre.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Que multidão de dependências na vida, leitor! Umas cousas nascem de outras, enroscam-se, desatam-se, confundem-se, perdem-se, e o tempo vai andando sem se perder a si.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Flora disse como pôde a inveja que lhe metia a vista da princesa, não para brilhar um dia, mas para fugir ao brilho e ao mando, sempre que quisesse ficar súdita de si mesma. Foi então que ele lhe murmurou, como acima: — Toda alma livre é imperatriz.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Tudo é possível debaixo do sol e da lua. A nossa felicidade, barão, é que morreremos antes.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Era talvez excesso de pudor. Há muito excesso nesse sentido, e o acertado é perdoá-lo. Há também excessos contrários, condescendências fáceis, pessoas que entram com prazer na troca de alusões picantes. Também se devem perdoar.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“(...) há estados da alma em que a matéria da narração é nada, o gosto de a fazer e de a ouvir é que é tudo.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Considere mais a vontade do céu, que vela por todas as criaturas que se querem, salvo se uma só é que quer a outra, porque então o céu é um abismo de iniquidades.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Aires suspirou em segredo, e curvou a cabeça ao Destino. Não se luta contra ele, dirás tu; o melhor é deixar que pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Tudo são instrumentos nas mãos da Vida.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Não há mal que não traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é útil, muita vez indispensável, alguma vez delicioso.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Tudo é pior que nada.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Aires quis aquietar-lhe o coração. Nada se mudaria; o regímen, sim, era possível, mas também se muda de roupa sem trocar de pele. Comércio é preciso. Os bancos são indispensáveis. No sábado, ou quando muito na segunda-feira, tudo voltaria ao que era na véspera, menos a constituição.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“As ocasiões fazem as revoluções.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Santos aceitou o conselho, mas vai muito do aceitar ao cumprir, e a aparência era mui diversa do coração. O coração batia-lhe. A cabeça via esboroar-se tudo.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Sobre isto escrevi agora algumas linhas, que não ficariam mal, se as acabasse, mas recuo a tempo, e risco-as. Não vale a pena ir à cata das palavras riscadas. Menos vale supri-las.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Assim um medo vence a outro, e a gente acaba por dar o que negou.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Ninguém sabia se a vitória do movimento era um bem, se um mal, apenas sabiam que era um fato.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Acharia um pretexto para resistir, se buscasse algum, mas amigos e cartas não deixavam buscar nada. Santos acabou aceitando. Provavelmente era essa mesma a inclinação íntima. Muitas há que precisam ser atraídas cá fora como um favor ou concessão da pessoa.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“O que é preciso é não deixar esfriar o ferro, batê-lo sempre, e renová-lo.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“A música tinha para ela a vantagem de não ser presente, passado ou futuro; era uma cousa fora do tempo e do espaço, uma idealidade pura.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Não havia governo definitivo. A alma da moça ia com esse primeiro albor do dia, ou com esse derradeiro crespúsculo da tarde, — como queiras, — em que nada é tão claro ou tão escuro que convide a deixar a cama ou acender velas. Quando muito, ia haver um governo provisório. Flora não entendia de formas nem de nomes. A sonata trazia a sensação da falta absoluta de governo, a anarquia da inocência primitiva naquele recanto do Paraíso que o homem perdeu por desobediente, e um dia ganhará, quando a perfeição trouxer a ordem eterna e única. Não haverá então progresso nem regresso, mas estabilidade.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Poetas de um e outro regímen tiraram imagem do fato para cantarem a alegria e a melancolia do mundo. A diferença é que a segunda abafava os seus suspiros, enquanto a primeira levava longe os seus tripúdios.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“(...) a comissão entrava a aborrecê-lo, posto que na correspondência oficial dissesse exatamente o contrário. Se tais papéis mostrassem sempre o coração da gente, Batista, cujas instruções eram aliás, de concórdia, parecia querer levar a concórdia a ferro e fogo; mas o estilo não é o homem. O coração de Batista fechava-se, quando ele escrevia, e deixava ir a mão adiante, com a chave do coração apertada...”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Serve-se muita vez a liberdade parecendo sufocá-la.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“O dia da opressão é a véspera da liberdade.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Pessoas do tempo, querendo exagerar a riqueza, dizem que o dinheiro brotava do chão, mas não é verdade. Quando muito, caía do céu.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Não é a ocasião que faz o ladrão, dizia ele a alguém; o provérbio está errado. A forma exata deve ser esta: 'A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito'.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Nenhum obséquio, por ínfimo que seja, esquece ao beneficiado. Há exceções. Também há casos em que a memória dos obséquios aflige, persegue e morde, como os mosquitos; mas não é regra. A regra é guardá-los na memória, como as joias nos seus escrínios; comparação justa, porque o obséquio é muita vez alguma joia, que o obsequiado esqueceu de restituir.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Como era sonho, a imaginação trazia espetáculos desconhecidos, tais e tantos que mal se podia crer bastasse o espaço de uma noite. E bastava. E sobrava.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Evocado algum tempo depois de morto, confessou ele ainda uma vez a sua fórmula, como a única das únicas, e excomungou a quantos pregassem o contrário. Aliás, os dissidentes já o haviam excomungado também, declarando abominável a sua memória, com aquele ódio rijo, que fortalece alguma vez o homem contra a frouxidão da piedade.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Não só de fé vive o homem, mas também de pão e seus compostos e similares.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Há muito remédio contra a insônia. O mais vulgar é contar de um até mil, três mil ou mais, se a insônia não ceder logo. É remédio que ainda não fez dormir ninguém, ao que parece, mas não importa. Até agora, todas as aplicações eficazes contra a tísica vão de par com a noção de que a tísica é incurável. Convém que os homens afirmem o que não sabem, e, por ofício, o contrário do que sabem; assim se forma esta outra incurável, a Esperança.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Parece que, se amasse exclusivamente o primeiro, o segundo podia chorar lágrimas de sangue, sem lhe merecer a menor simpatia. Que o amor, conforme as ninfas antigas e modernas, não tem piedade. Quando há piedade para outro, dizem elas, é que o amor ainda não nasceu de verdade, ou já morreu de todo, e assim o coração não lhe importa vestir essa primeira camisa do afeto. Perdoa a figura; não é nobre, nem clara, mas a situação não me dá tempo de ir à cata de outra.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“(...) nada há pior que falar de sensações sem nome.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Não era verdade, mas não é a verdade que vence, é a convicção. Convence-te de uma ideia, e morrerás por ela.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“— (...) se concordo, é porque eles só dizem o que eu penso.
— Já o tenho achado em contradição.
— Pode ser. A vida e o mundo não são outra cousa. A senhora não saberá isto bem, porque é moça e ingênua, mas creia que a vantagem toda é sua. A ingenuidade é o melhor livro e a mocidade a melhor escola.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Vinham de estar com Aires no teatro, uma noite, matando o tempo. Conheceis este dragão; toda a gente lhe tem dado os mais fundos golpes que pode, ele esperneia, expira e renasce. Assim se fez naquela noite. (...) a questão era matar o tempo, e os três o deixaram estirado no chão.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Mais tarde, tendo adquirido do tempo a noção idealista que ora possuía, compreendeu que tal dragão era juntamente vivo e defunto, e tanto valia matá-lo como nutri-lo.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Nada era verdade, mas nem só a verdade se deve dizer às mães.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Os próprios segredos cansam de calar — calar ou dormir; fiquemos com este outro verbo, que serve melhor à imagem. Cansam e ajudam a seu modo aquilo que imputamos à indiscrição alheia.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Tudo estava acabado. Era só escrever no coração as palavras do espírito, para que lhe servissem de lembrança. Flora escreveu-as, com a mão trêmula e a vista turva; logo que acabou, viu que as palavras não combinavam, as letras confundiam-se, depois iam morrendo, não todas, mas salteadamente até que o músculo as lançou de si.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Como pode um só teto cobrir tão diversos pensamentos? Assim é também este céu claro ou brusco, — outro teto vastíssimo que os cobre com o mesmo zelo da galinha aos seus pintos... Nem esqueça o próprio crânio do homem, que os cobre igualmente, não só diversos, senão opostos.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Este mundo é dos namorados. Tudo se pode dispensar nele; dia virá em que se dispensem até os governos, a anarquia se organizará de si mesma, como nos primeiros dias do paraíso. Quanto à comida, virá de Boston ou de Nova Iorque um processo para que a gente se nutra com a simples respiração do ar. Os namorados é que serão perpétuos.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Conheci um homem que adoeceu velho, se não de velho, e despendeu no rompimento final um tempo quase infinito. Já pedia a morte, mas quando via o rosto descarnado da derradeira amiga espiar da porta entreaberta, voltava o seu para outro lado e engrolava uma cantiga de infância, para enganá-la e viver.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“'Quando um não quer, dois não brigam', tal é o velho provérbio que ouvi em rapaz, a melhor idade para ouvir provérbios. Na idade madura eles devem já fazer parte da bagagem da vida, frutos da experiência antiga e comum. Eu cria neste; mas não foi ele que me deu a resolução de não brigar nunca. Foi por achá-lo em mim que lhe dei crédito. Ainda que não existisse, era a mesma cousa.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Aires não tinha aquele triste pecado dos opiniáticos; não lhe importava ser ou não aceito.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Conte com as circunstâncias, que também são fadas. Conte mais com o imprevisto. O imprevisto é uma espécie de deus avulso, ao qual é preciso dar algumas ações de graças; pode ter voto decisivo na assembleia dos acontecimentos.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“— Pois então podem contá-lo a mim. Eu serei discreto como um túmulo.
Aires sabia que os túmulos não são discretos. Se não dizem nada, é porque diriam sempre a mesma história; daí a fama de discrição. Não é virtude, é falta de novidade.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Contadas todas as horas de agonia que tem havido no mundo, quantos séculos farão?”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)




“Enfim, a morte chega, por muito que se demore, e arranca a pessoa ao pranto ou ao silêncio.”
(Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”)



“Cada obra pertence ao seu tempo.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Sem embargo do ardor político do tempo, não estava ligado a nenhum dos dois partidos, conservando em ambos preciosas amizades, que ali se acharam na ocasião de o dar à sepultura. Tinha, entretanto, tais ou quais ideias políticas, colhidas nas fronteiras conservadoras e liberais, justamente no ponto em que os dois domínios podem confundir-se.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Também a dor tem suas volúpias; tia e sobrinho queriam nutri-la com a presença dos objetos pessoais do morto, no lugar de suas predileções quotidianas.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“— Mas a tristeza é necessária à vida (...). As dores alheias fazem lembrar as próprias, e são um corretivo da alegria, cujo excesso pode engendrar o orgulho.
Camargo temperou esta filosofia, que lhe pareceu demasiado austera, com algumas ideias mais acomodadas e risonhas.
— Deixemos a cada idade a sua atmosfera própria, concluiu ele, e não antecipemos a da reflexão, que é tornar infelizes os que ainda não passaram do puro sentimento.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“(...) viveu a vida de família, na idade em que outros, seus companheiros, viviam a das ruas e perdiam em cousas ínfimas a virgindade das primeiras sensações.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Não se deliberam sentimentos, ama-se ou aborrece-se, conforme o coração quer.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Uma criança, subitamente transferida ao colégio, não desfolha mais tristemente as primeiras saudades da casa de seus pais. Mas a asa do tempo leva tudo.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Por enquanto somos estranhas uma à outra; mas nenhuma de nós é má.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“— Titia... disse Estácio jovialmente; minha irmã conhece já a casa toda e suas dependências. Resta somente que lhe mostremos o coração (...). Não quererá lhe mostrar o seu?
— Não vale a pena! respondeu D. Úrsula com afetada bonomia; coração de velha é casa arruinada.
— Pois as casas velhas consertam-se, replicou Helena sorrindo.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Mediante os seus recursos, e muita paciência, arte e resignação — não humilde, mas digna —, conseguia polir os ásperos, atrair os indiferentes e domar os hostis.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“(...) ouviu o padre, prometeu o que este exigia, mas foi promessa feita na areia; o primeiro vento do coração apagou a escritura.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“O Dr. Matos era um velho advogado que, em compensação da ciência do direito, que não sabia, possuía noções muito aproveitáveis de meteorologia e botânica, da arte de comer, do voltarete, do gamão e da política (...). Posto soubesse efetivamente alguma cousa dos assuntos que lhe eram mais prezados, não ganhou o pecúlio que possuía professando a botânica ou a meteorologia, mas aplicando as regras do direito, que ignorou até a morte.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“A reputação dos homens amorosos parece-se muito com o juro do dinheiro: alcançado certo capital, ele próprio se multiplica e avulta. O conselheiro desfrutou essa vantagem, de maneira que, se no outro mundo lhe levassem à coluna dos pecados todos os que lhe atribuíam na terra, receberia dobrado castigo do que mereceu.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“A origem da moça continuava misteriosa; vantagem grande, porque o obscuro favorecia a lenda.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“(...) quer saber a verdadeira razão do mau sucesso de suas afeições? É deixar-se levar mais pelas aparências que pela realidade; é porque dá menos apreço às qualidades sólidas do coração do que às frívolas exterioridades da vida. Suas amizades são das que duram a roda de uma valsa, ou, quando muito, a moda de um chapéu; podem satisfazer o capricho de um dia, mas são estéreis para as necessidades do coração.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Francamente, é para lastimar uma amizade, ganha entre duas quadrilhas e perdida por causa de um chapéu? Não vale a pena esperdiçar afetos, Eugênia; sentirá mais tarde que essa moeda do coração não se deve nunca reduzir a trocos miúdos nem despender em quinquilharias.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Estácio viu murmurar, crescer e desabar a tempestade. A moça articulava algumas frases soltas, batia no chão com o pezinho mimoso, que por acaso esmagou uma pobre erva, alheia às divergências morais daquelas duas criaturas. Ora parava e desandava o caminho; mas logo se dirigia para o moço, com as pálpebras trêmulas de cólera e um remoque nos lábios; comprazia-se em torcer a ponta da manga ou morder a ponta do dedo. Estácio, afeito a essas explosões, não lhes sabia remédio próprio: tanto o silêncio como a réplica eram ali matérias inflamáveis. Contudo, o silêncio era o menor dos dois perigos.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“O amor de Estácio tinha a particularidade de crescer e afirmar-se na ausência e diminuir logo que estava ao pé da moça. De longe, via-a através da névoa luminosa da imaginação; ao pé era difícil que Eugênia conservasse os dotes que ele lhe emprestava.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“O medo? O medo é um preconceito dos nervos. E um preconceito desfaz-se; basta a simples reflexão.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Valem muito os bens da fortuna, dizia Estácio: eles dão a maior felicidade da terra, que é a independência absoluta. Nunca experimentei a necessidade; mas imagino que o pior que há nela não é a privação de alguns apetites ou desejos, de sua natureza transitórios, mas sim essa escravidão moral que submete o homem aos outros homens. A riqueza compra até o tempo, que é o mais precioso e fugitivo bem que nos coube.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“(...) aquele homem gastará muito mais tempo do que nós em caminhar. Mas não é isso uma simples questão de ponto de vista? A rigor, o tempo corre do mesmo modo, quer o esperdicemos, quer o economizemos. O essencial não é fazer muita cousa no menor prazo; é fazer muita cousa aprazível ou útil.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Sobretudo, peço-lhe que escreva em seu espírito esta verdade: é que sou uma pobre alma lançada num turbilhão.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Ela tem o poder de concentrar a amargura no coração; também a dor tem suas hipocrisias.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Tarde ou cedo o temperamento domina as circunstâncias da origem.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Os espíritos, disse ele, nascem condores ou andorinhas, ou ainda outras espécies intermédias. A uns é necessário o horizonte vasto, a elevada montanha, de cujo cimo batem as asas e sobem a encarar o sol; outros contentam-se com algumas longas braças de espaço e um telhado em que vão esconder o ninho. Estes eram os obscuros, e, na opinião dele, os mais felizes. Não seduzem as vistas, não subjugam os homens, não os menciona a história em suas páginas luminosas ou sombrias; o vão do telhado em que abrigaram a prole, a árvore em que pousaram, são as testemunhas únicas e passageiras da felicidade de alguns dias. Quando a morte os colhe, vão eles pousar no regaço comum da eternidade, onde dormem o mesmo perpétuo sono, tanto o capitão que subiu ao sumo estado por uma escada de mortos, como o cabreiro que o viu passar uma vez e o esqueceu duas horas depois.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Saiba que detesto igualmente a filosofia da obscuridade e a retórica dos poetas. Sobretudo, gosto que me respondam em prosa quando falo em prosa.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Ora, eu falo de cousas sérias; e convém não confundir alhos, que são a metade prática da vida, com bugalhos, que são a parte ideológica e vã.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Já escolhi, disse Estácio; pedia-lhe conselho para apoiar melhor a minha própria decisão. Não é esse o destino de todos os conselhos?”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“O casamento não é uma solução, penso eu; é um ponto de partida. O marido fará a esposa. Convenho que Eugênia não tem todas as qualidades que você desejaria; mas não se pode exigir tudo: alguma cousa é preciso sacrificar, e do sacrifício recíproco é que nasce a felicidade doméstica.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Caminhara para o casamento com os olhos fechados; ao abri-los, viu-se à beira de uma cousa que lhe pareceu abismo, e era simplesmente um fosso estreito. De um pulo poderia transpô-lo; mas, se não era irresoluto nem débil, tinha ele acaso vontade de dar esse salto?”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“O melhor modo de viver em paz é nutrir o amor-próprio dos outros com pedaços do nosso.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“A beleza é como a bravura; vale mais se não a metem à cara dos outros.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“O casamento é a pior ou a melhor cousa do mundo; pura questão de temperamento.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“A riqueza não deve ser dissipada, mas é certo que impõe obrigações imprescindíveis, e seria da maior inconveniência viver a gente abaixo de seus meios. Não farás isso nem cairás no extremo oposto; procura um meio-termo, que é a posição do bom senso. Nem dissipada nem miserável.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Ele contemplava-a com o mesmo orgulho com que o joalheiro admira o adereço que lhe saiu das mãos. Era a ternura do egoísta; amava-se na própria obra.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Todo o incômodo é aprazível quando termina em legado.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“(...) as despedidas mais longas são as mais difíceis de suportar.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Mendonça sentiu que metade de seu destino estava acabada, e que a outra metade ia começar, mais circunspecta que a primeira. O relógio em que ele viu bater essa hora fatídica foram os olhos de Helena. Mendonça começava a amar.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Eu não sei o que é amar o tumulto exterior; acho que é dispersar a alma e crestar a flor dos sentimentos.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“(...) o estado da doente é perdido, que a morte é certa; mas que a vida pode prolongar-se ainda por muitos dias. Vê que expectativa! Estou com raiva de mim mesmo; esses últimos dias da enferma pesam sobre mim como se fora o punho fechado do destino. Se a morte é certa, por que viver uns dias mais? E é vida isso, ou é morrer aos goles, sem consciência do que se perde nem do que se vai ganhar?”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“A reflexão corrigiu a espontaneidade e o padre reassumiu o gesto usual, com essa dissimulação que é um dever, quando a sinceridade é um perigo.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Que são minutos e que são meses? Paixões de largos anos, chegando ao casamento, acabam muitas vezes pela separação ou pelo ódio, quando menos pela indiferença. O amor não é mais que um instrumento de escolha; amar é eleger a criatura que há de ser companheira na vida, não é afiançar a perpétua felicidade de duas pessoas, porque essa pode esvair-se ou corromper-se. Que resta à maior parte dos casamentos, logo após os anos de paixão? Uma afeição pacífica, a estima, a intimidade. Não peço mais ao casamento, nem lhe posso dar mais do que isso.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Ao cabo de alguns minutos, sorriu; compreendera que, apenas suspeitada a sua felicidade, já a inveja lhe deitava na taça uma gota de veneno. Ergueu os ombros, resoluto a suportar tranquilo essa lívida companheira do êxito.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Nada há definitivo no mundo, nem o infortúnio nem a prosperidade. O que a tua imaginação supõe estar perdido , acha-se apenas transviado ou oculto...”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Naquele corpo mediano havia uma águia cativa. Entre as quatro paredes da casa, limitada a vista pelos arbustos e as flores do jardim, Melchior olvidava o tempo e eliminava o espaço, vivendo a vida retrospectiva ou profética, doce e misteriosa volúpia das almas solitárias. Melchior era um solitário; sem embargo das relações sociais, que ele cultivava, amava sobretudo estar separado dos homens. Nessas horas, que eram a maior parte do tempo, lia ou meditava, esquecido ou estranho a todas as cousas do seu século.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Estima-te, é certo; mas a estima é flor da razão, e eu creio que a flor do sentimento é muito mais própria no canteiro do matrimônio.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Mendonça saiu dali sem rancor, mas sem pesar. O coração sangrava-lhe, a consciência ia contente.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Ocupado, sem dúvida, em adormecer organizações menos sensíveis e existências menos complicadas, o sono fez-lhe apenas uma curta visita.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Quem sabe por que fios tênues se prendem muitas vezes os acontecimentos humanos?”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Mas a suspeita é a tênia do espírito; não perece enquanto lhe resta a cabeça.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Estácio teria recusado o convite, porque o espetáculo da pobreza lhe repugnava aos olhos saturados da abastança.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“(...) nenhuma precaução é inútil em cousa nenhuma da vida.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“— Há de perdoar-me, interrompeu Estácio com um ar de familiaridade indiscreta, que lhe não era habitual; eu creio que um homem forte, moço e inteligente não tem o direito de cair na penúria.
— Sua observação, disse o dono da casa sorrindo, traz o sabor do chocolate que o senhor bebeu naturalmente esta manhã antes de sair para a caça. Presumo que é rico. Na abastança é impossível compreender as lutas da miséria, e a máxima de que todo o homem pode, com esforço, chegar ao mesmo brilhante resultado, há de sempre parecer uma grande verdade à pessoa que estiver trinchando um peru... Pois não é assim; há exceções. Nas cousas deste mundo não é tão livre o homem, como supõe, e uma cousa, a que uns chamam mau fado, outros concurso de circunstâncias, e que nós batizamos com o genuíno nome brasileiro de caiporismo, impede a alguns ver o fruto de seus mais hercúleos esforços. César e sua fortuna! Toda a sabedoria humana está contida nestas quatro palavras.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“(...) além, ficam duas braças de quintal; para lá do quintal... o infinito da indiferença humana.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“— (...) Tenho amigos e alguma influência; poderia arranjar-lhe melhor posição...
O desconhecido refletiu um instante.
—Aceitaria? perguntou Estácio.
— Estou pensando na maneira de recusar. Ouro é o que ouro vale. Eu vexar-me-ia eternamente de dever qualquer melhora da sorte ao cumprimento de um dever de caridade.
— Já me não admira a vida pobre que tem tido.
— Excessivo escrúpulo, talvez?...
— Escrúpulo desarrazoado.
— Antes de mais que de menos.
— Nem de menos nem de mais; mas só a porção justa.
— A porção varia, conforme as necessidades morais de cada um.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Inocente ou culpada, Helena aparecia-lhe naquele momento como uma recordação das horas felizes — doce recordação que os sucessos presentes ou futuros podiam somente tornar mais saudosa, mas não destruiriam nunca, porque é esse o misterioso privilégio do passado.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Melchior não condenava nem absolvia; esperava.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“(...) a tentação usa essa tática serpentina e dolosa; é insinuante como a calúnia, e pertinaz como a suspeita.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“(...) cada minuto lhe ia tornando mais clara a verdade revelada, e o que era obscuro fizera-se-lhe enfim transparente. É assim que a luz de um astro, acesa desde séculos, chega finalmente a ferir a retina de nossos olhos mortais.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Paz aos mortos! observou Melchior. Os atos de seu pai já não pertencem à jurisdição deste mundo.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Haveria naquela casa uma geração de dores, destinadas a abater o orgulho da riqueza com o irremediável espetáculo da debilidade humana?”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“Tinha vinte anos quando deixei a casa paterna; possuía alguns estudos poucos, meia dúzia de patacões, muito amor e muita esperança. Era de sobra para a minha idade, mas insuficiente para o meu futuro.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“O poeta que disse que a saudade é um pungir delicioso, não consultou meu coração.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“O passado é um pecúlio para os que já não esperam nada do presente ou do futuro; há ali sensações vivas que preenchem as lacunas de todo o tempo.”
(Machado de Assis, no livro “Helena”)



“A violência e a opressão não levarão à paz.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Não era frade, mas queria como eles a solidão e o sossego. A solidão não era absoluta, nem o sossego ininterrompido; mas eram sempre maiores e mais certos que cá embaixo.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) e, porque nenhuma vocação apostólica o incitava a abrir a outros a porta de seu refúgio, podia dizer-se que fundara um convento em que ele era quase toda a comunidade, desde prior até noviço.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Um observador atento podia adivinhar por trás daquela impassibilidade aparente ou contraída as ruínas de um coração desenganado. Assim era; a experiência, que foi precoce, produzira em Luís Garcia um estado de apatia e ceticismo, com laivos de desdém.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Alguns poderiam temê-lo, outros detestá-lo, sem que merecesse execração nem temor. Era inofensivo por temperamento e por cálculo. Como um célebre eclesiástico, tinha para si que uma onça de paz vale mais que uma libra de vitória.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Luís Garcia amava a espécie e aborrecia o indivíduo.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Uma profissão honesta aparava os golpes possíveis da adversidade.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“O tempo, esse químico invisível, que dissolve, compõe, extrai e transforma todas as substâncias morais, acabou por matar no coração do viúvo, não a lembrança da mulher, mas a dor de a haver perdido.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) um homem de mais ou de menos [na guerra] não pesaria nada na balança do destino.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Jorge está formado, disse ela, mas não tem queda para a profissão de advogado nem para a de juiz. Goza por enquanto a vida; mas os dias passam, e a ociosidade faz-se natureza com o tempo.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“— (...) O obséquio que hoje exige de mim, quem sabe se mo não lançará em rosto um dia como ato de leviandade?
— Nunca.
— Nesse dia, observou Luís Garcia sorrindo levemente, há de ser tão sincera como hoje.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“O coração humano é a região do inesperado.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Havia ali a massa de um homem futuro, à espera que os anos, cuja ação é lenta, oportuna e inevitável, lhe dessem fixidez ao caráter e virilidade à razão.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Repito-lhe o conselho: não se atire de cabeça para baixo numa aventura sem fundo.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“O Sr. Antunes, que não era de extremas filosofias, tinha a convicção de que debaixo do sol, nem tudo são vaidades, como quer o Eclesiastes, nem tudo perfeições, como opina o doutor Pangloss; entendia que há larga ponderação de males e bens, e que a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“O Sr. Antunes recebeu dois golpes em vez de um: o de ver morrer [o patrão], e o de o não ver testar.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Os presentes mais queridos guardam-se.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) tinha a alma acima do destino. Era orgulhosa, tão orgulhosa que chegava a fazer da inferioridade uma auréola; mas o orgulho não lhe derivava de inveja impotente ou de estéril ambição; era uma força, não um vício, – era o seu broquel de diamante, – o que a preservava do mal.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) disse que não estava disposta a ser sua nora, porque Jorge não a amaria nunca; e, conquanto, não visse no casamento uma página de romance, entendia que a antipatia ou total indiferença era o mais frouxo dos vínculos conjugais.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Intolerável é a dor que não deixa sequer o direito de arguir a fortuna. O mais duro dos sacrifícios é o que não tem as consolações da consciência.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“A vida não é uma égloga virgiliana, é uma convenção natural, que se não aceita com restrições, nem se infringe sem penalidade.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) a lei do coração é anterior e superior às outras leis.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) a que viria o arrependimento, se era tarde?”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Os corações discretos são raros; a maioria não é de gaviões brancos, que, ainda feridos, voam calados, como diz a trova; a maioria é das pegas, que contam tudo ou quase tudo.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Não se sentia feliz nem infeliz, mas nesse estado médio, que é a condição vulgar da vida humana.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“A viúva tinha a verdadeira generosidade, que consiste menos em prestar o obséquio do que em dissimulá-lo.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) o que é raro não é impossível.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) à taça da vida não pedia mais do que alguns goles, poucos. Que importa? A vida conjugal é tão somente uma crônica; basta-lhe fidelidade e algum estilo.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) há um prazo fatal para que as graças percam o primitivo frescor, e a flor expire o seu último cheiro, – ao passo que a natureza social tem a decrepitude precoce, e um princípio de corrupção, que destrói em breve termo todas as florescências do primeiro sol.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) há ocasiões em que o mais indiferente é um herói.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) quando os olhos estavam mais atentos na página aberta, o espírito saía pé ante pé e deitava a correr pela infinita campanha dos sonhos vagos. Voltava de quando em quando; e os olhos, que haviam chegado mecanicamente ao fim da página, tornavam ao princípio, a reatar o fio da atenção. Como se a culpa fosse do livro, trocava-o por outro, e ia da filosofia à história, da crítica à poesia, saltando de uma língua a outra, e de um século a outro século, sem outra lei mais que o acaso.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“A noite caiu de todo, e a alma de Estela mergulharia também na vaga e pérfida escuridão do futuro.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) não havia cedido a nenhum plano preconcebido; ia à feição do tempo, metia-se por um atalho, sem saber se iria dar à estrada reta ou a um abismo.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Na secretária, ao pé deste, havia um maço de coisas que serviam, um maço pequeno; a grande maioria era a dos destroços inúteis. Não é isso mesmo a imagem do passado? Luís Garcia desdobrava às vezes um jornal, avaramente guardado havia anos; duas cruzes ou alguns traços indicavam o trecho que nesse tempo lhe chamara a atenção. Relia-o agora; buscava o motivo da reserva e sorria. A impressão que comunicara algum interesse ao escrito desaparecera de todo; o escrito era um esqueleto. Também as cartas eram assim. Raras escapavam à destruição.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Uma hora inteira gastou nesse cogitar solitário, a sós com a suspeita e o remorso. Também remorso, porque de quando em quando aterrada com a vista do caminho andado, a alma recuava e estremecia; tinha horror de si mesma. Mas a figura pálida da madrasta surgia ao pé dela, com a expressão que lhe vira pouco antes, e a consciência fazia as pazes com a malícia.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Talvez o mais lastimoso efeito dos desvios domésticos é essa corrupção dos corações ingênuos, impassíveis testemunhas do que ignoram um dia, do que suspeitam, percebem e sabem na seguinte manhã.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Grossas lágrimas e quentes lhe romperam dos olhos; Iaiá deixou-as cair; sorveu-as com seus próprios beijos. Quando essa primeira explosão acabou, acabou para se não repetir mais. Enxutos os olhos, Iaiá pôde finalmente refletir, e a reflexão dominou a angústia.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Não conhecia a hipocrisia, mas acabava de suspeitá-la; começava, talvez, a aprendê-la.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) sei que as paixões governam os homens, e que a força de as reger não é vulgar. Por isso mesmo é que se estima a virtude. No dia em que a natureza se fizer comunista e distribuir igualmente as boas qualidades morais, a virtude deixa de ser uma riqueza; fica sendo coisa nenhuma.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) sejamos justos com a natureza humana. Virtudes inteiriças são invenções de poetas.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) a palavra de honra não obriga a consciência, quando é dada para salvar uma questão de honra. O senhor poderia dá-la sem sinceridade nem remorso.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Das qualidades necessárias ao xadrez, Iaiá possuía as duas essenciais: vista pronta e paciência beneditina; qualidades preciosas na vida, que também é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras perdidas, outras nulas.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“O professor é o pai intelectual do discípulo.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Não há nada como a ausência para fazer esquecer tudo.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“— Acha que eu fazia bem em me casar com ele?
— Bem ou mal, conforme o amor que lhe tiver. Esse é o ponto necessário, e em meu conceito, o ponto duvidoso.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“— Nada, não creio; só se me jurasse; era capaz de jurar?
— Juro.
— Em nome de sua mãe? concluiu ela fitando-lhe uns olhos cuja expressão imperativa contrastava com o tom submisso da palavra.
Jorge hesitou um instante. Tinha ceticismo bastante para proferir uma fórmula vaga de juramento; mas recusou diante da fórmula positiva.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“A resposta, disse ele, já está escrita. Não querendo matá-lo, pus aqui algumas gotas de esperança; não ousaria contudo mandar o remédio, sem ouvi-la.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“A noite era clara e serena; os milhões de estrelas que cintilavam pareciam rir dos milhões de angústias da terra.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) quando estimo alguém, perdoo; quando não estimo, esqueço. Perdoar e esquecer é raro, mas não é impossível.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Não há que rir de sentimentos sinceros.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) resista um pouco a essas sensações, cujo excesso pode perturbar-lhe a existência. Não é só o coração que lhe fala, é também a imaginação, e a imaginação, se é boa amiga, tem seus dias de infidelidade. Dê um pouco de poesia, à vida, mas não caia no romanesco; o romanesco é pérfido.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“— Penso que o amor verdadeiro, ou ao menos o melhor é o que não vê nada em volta de si, e caminha direito, resoluto e feliz aonde o leva o coração. Para que servem os olhos abertos?
— A senhora quer saber muita coisa, disse Jorge sorrindo. Não basta que o coração lhe diga: ame a este; é preciso que os olhos aprovem a escolha do coração.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) é lícito não distinguir entre o sentimento que fala e a conveniência que restringe.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) não se dão conselhos ao coração que ama.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Não se brinca com um inimigo.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“— Que noiva receou nunca de um amor antigo, começado e acabado, antes dela ser amada também? Que o novo amor seja sincero e fiel, eis o que se deve pedir e exigir. Quanto ao passado, é como os defuntos; reza-se por ele, quando se reza.
— Tenho medo de almas do outro mundo, tornou Iaiá sorrindo.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“(...) aumentou a vitalidade de um sentimento, que é a forma desinteressada do egoísmo, – a felicidade de fazer outrem feliz.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Alguma coisa escapa ao naufrágio das ilusões.”
(Machado de Assis, no livro “Iaiá Garcia”)



“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo. Tarde e aborrecido.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“A minha ideia, depois de tantas cabriolas, constituíra-se ideia fixa. Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) cumpre advertir que a natureza é uma grande caprichosa e a história uma eterna loureira.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Todavia, importa dizer que este livro é escrito com pachorra, com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, coisa que não edifica nem destrói, não inflama nem regela, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Não se riam dessa vitória comum da farmácia e do puritanismo. Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande, pública, ostensiva, há muitas vezes várias outras bandeiras modestamente particulares, que se hasteiam e flutuam à sombra daquela, e não poucas vezes lhe sobrevivem? Mal comparando, é como a arraia-miúda, que se acolhia à sombra do castelo-feudal; caiu este e a arraia ficou. Verdade é que se fez graúda e castelã... Não, a comparação não presta.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) trazia comigo a ideia fixa dos doidos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do chão das turbas, e remontar ao céu, como uma águia imortal, e não é diante de tão excelso espetáculo que um homem pode sentir a dor que o punge.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Recuou o sol, sacudi todas as misérias, e este punhado de pó, que a morte ia espalhar na eternidade do nada, pôde mais do que o tempo, que é o ministro da morte. Nenhuma água de Juventa igualaria ali a simples saudade.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Creiam-me, o menos mau é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se pode gozar deveras, porque entre uma e outra dessas duas ilusões , melhor é a que se gosta sem doer.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) eu, prestes a deixar o mundo, sentia um prazer satânico em mofar dele, em persuadir-me que não deixava nada.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) e eu perguntava a mim mesmo o que diriam de nós os gaviões se Buffon tivesse nascido gavião...”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga (...). Não te assustes, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives; não quero outro flagelo (...). Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver. (...) eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“— Que mais queres tu, sublime idiota?
— Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, se não tu? E, se eu amo a vida, porque te hás de golpear a ti mesma, matando-me?
— Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim - flagelos e delícias - desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura - nada menos que a quimera da felicidade - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Mas é sestro antigo da Sandice criar amor às casas alheias, de modo que, apenas senhora de uma, dificilmente lha farão despejar. É sestro; não se tira daí; há muito que lhe calejou a vergonha. Agora, se advertirmos no imenso número de casas que ocupa, umas de vez, outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos proprietários.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Que isto de método, sendo, como é, uma coisa indispensável, todavia é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um pouco à fresca e à solta, como quem não se lhe dá da vizinha fronteira, nem do inspetor de quarteirão. É como a eloquência, que há uma genuína e vibrante, de uma arte natural e feiticeira, e outra tesa, engomada e chocha.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta flor.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Meu pai, que à força de persuadir os outros da nossa nobreza, acabara persuadindo-se a si próprio (...).”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Que querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Lição de cor e compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que é das últimas letras.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Como ostentasse certa arrogância, não se distinguia bem se era uma criança com fumos de homem, se um homem com ares de menino.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Uma noite, logo no fim de uma semana, achei ensejo propício para morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capitão, que junto à amurada, tinha os olhos fitos no horizonte (...). Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do espírito os pensamentos maus; preferi dormir, que é um modo interino de morrer.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Eu, que meditava ir ter com a morte, não ousei fitá-la quando ela veio ter comigo.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“A Universidade esperava-me com as suas matérias árduas, estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; deram-mo com a solenidade do estilo, após os anos da lei (...). No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-me a responsabilidade.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“A infeliz padecia de um modo cru, porque o cancro é indiferente às virtudes do sujeito; quando rói, rói; roer é o seu ofício.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso alumiou o rosto da enferma, sobre o qual a morte batia a asa eterna. Era menos um rosto do que uma caveira: a beleza passara, como um dia brilhante; restavam os ossos, que não emagrecem nunca.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Mas esse duelo do ser e do não ser, a morte em ação, dolorida, contraída, convulsa, sem aparelho político ou filosófico, a morte de uma pessoa amada, essa foi a primeira vez que a pude encarar. Não chorei; lembra-me que não chorei durante o espetáculo: tinha os olhos estúpidos, a garganta presa, a consciência boquiaberta. Quê? uma criatura tão dócil, tão meiga, tão santa, que nunca jamais fizera verter uma lágrima de desgosto, mãe carinhosa, esposa imaculada, era força que morresse assim, trateada, mordida pelo dente tenaz de uma doença sem misericórdia? Confesso que tudo aquilo me pareceu obscuro, incongruente, insano.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Jamais o problema da vida e da morte me oprimira o cérebro; nunca até esse dia me debruçara sobre o abismo do Inexplicável; faltava-me o essencial, que é o estímulo, a vertigem...”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação única, uma coisa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento. Volúpia do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se não chegares a entendê-la, podes concluir que ignoras uma das sensações mais sutis desse mundo e daquele tempo.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“— Mas, dirás tu, como é que podes assim discernir a verdade daquele tempo, e exprimi-la depois de tantos anos?
Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) não te deixes ficar aí inútil, obscuro e triste; não gastei dinheiro, cuidados, empenhos, para te não ver brilhar, como deves, e te convém, e a todos nós; é preciso continuar o nosso nome, continuá-lo e ilustrá-lo ainda mais. Olha, estou com sessenta anos, mas se fosse necessário começar a vida nova, começava, sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Brás; foge do que é ínfimo. Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estraques as vantagens da tua posição, os teus meios...”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“O melhor que há, quando se não resolve um enigma, é sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no cérebro. Fiquei aliviado e fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espírito, deixou novamente entrar o bichinho, e aí fiquei eu a noite toda a cavar o mistério, sem explicá-lo.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) esta injúria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) negociava com o único fim de acudir à paixão do lucro, que era o verme roedor daquela existência.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) e eis me surge o passado, ei-lo que me lacera e beija; ei-lo que me interroga, com um rosto cortado de saudades e bexigas...”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Não há, às vezes, um certo vento morno, não forte nem áspero, mas abafadiço, que nos não leva o chapéu da cabeça, nem redemoinha nas saias das mulheres, e todavia é ou parece ser pior do que se fizesse uma e outra coisa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os espíritos? Pois eu tinha esse vento comigo; e, certo de que ele me soprava por achar-me naquela espécie de garganta entre o passado e o presente, almejava por sair à planície do futuro.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Havia alguma afetação naquele desdém; era um arrebique do gesto. Lá dentro, ela padecia, e não pouco - ou fosse mágoa pura, ou só despesa; e porque a dor que se dissimula dói mais, é mui provável que Virgília padecesse em dobro do que realmente devia padecer. Creio que isto é metafísica.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Outra coisa que também me parece metafísica é isto: — Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou. Suponhamos que a primeira bola se chama... Marcela — é uma simples suposição; a segunda, Brás Cubas; — a terceira, Virgília. Temos que Marcela, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Brás Cubas — o qual, cedendo à força impulsiva, entrou a rolar também até esbarrar em Virgília, que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma coisa que poderemos chamar — solidariedade do aborrecimento humano.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“O lábio do homem não é como a pata do cavalo de Átila, que esterilizava o solo em que batia; é justamente o contrário.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Meu pai ficou atônito com o desenlace, e quer-me parecer que não morreu de outra coisa. Eram tantos os castelos que engenhara, tantos e tantíssimos os sonhos, que não podia vê-los assim esboroados, sem padecer um forte abalo no organismo.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Mas eu era moço, tinha o remédio em mim mesmo. Meu pai é que não pôde suportar facilmente a pancada.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Pena de maus costumes, ata uma gravata ao estilo, veste-lhe um colete menos sórdido; e depois sim, depois vem comigo.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Os versos dele agradavam e valiam mais do que os meus; mas ele tinha necessidade da sanção de alguns, que lhe confirmasse o aplauso dos outros.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Com efeito, bastou-me atentar no costume do faquir. Sabe o leitor que o faquir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz com o fim único de ver a luz celeste. Quando ele finca os olhos na ponta do nariz, perde o sentimento das coisas externas, embeleza-se no invisível, apreende o impalpável, desvincula-se da terra, dissolve-se, eteriza-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais excelso do espírito, e a faculdade de a obter não pertence ao faquir somente: é universal. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu próprio nariz, para o fim de ver a luz celeste, e tal contemplação, cujo efeito é a subordinação do universo a um nariz somente, constitui o equilíbrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o gênero humano não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“A conclusão, portanto, é que há duas forças capitais: o amor, que multiplica a espécie, e o nariz, que a subordina ao indivíduo. Procriação, equilíbrio.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula fazia-me muito mal; esse tique-taque soturno, vagaroso e seco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e da morte, a tirar as moedas da vida para dá-las à morte, e contá-las assim:
— Outra de menos...
— Outra de menos...
— Outra de menos...
— Outra de menos...
O mais singular é que, se o relógio parava, eu dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções há, que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Sim senhor, amávamos. Agora, que todas as leis sociais no-lo impediam, agora é que nos amávamos deveras.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Eis-nos a caminhar sem saber até onde, por que estradas escusas; problema que me assustou, durante algumas semanas, mas cuja solução entreguei ao destino. Pobre Destino! Onde andarás agora, grande procurador dos negócios humanos? Talvez estejas a criar pele nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e não é impossível que... Já me não lembra onde estava... Ah! nas estradas escusas.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) então compreendi que a ambição dele andava cansada de bater as asas, sem poder abrir o voo.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Entrei na política por gosto, por família, por ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem à vida pública.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Não é o primeiro que me promete alguma coisa, replicou, e não sei se será o último que não me fará nada. E para quê? Eu nada peço.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Contudo, não pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outrora, entristecer-me e encarar o abismo que separa as esperanças de um tempo da realidade de outro tempo...”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) só as grandes paixões são capazes de grandes ações.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Não falava muito nem sempre; possuía a grande arte de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na cadeira, desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os outros, não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo que ela olhava só, ora fixa, ora móbil, levando a astúcia ao ponto de olhar às vezes para dentro de si, porque deixava cair as pálpebras; mas, como as pestanas eram rótulas, o olhar continuava o seu ofício, remexendo a alma e a vida dos outros.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) donde se poderia deduzir que o vício é muitas vezes o estrume da virtude. O que não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sã.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) podia chegar aos setenta, aos oitenta, aos noventa anos, sem adquirir jamais aquela compostura austera, que é a gentileza do ancião. A velhice ridícula é, porventura, a mais triste e derradeira surpresa da natureza humana.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Duvidava da superstição, sem chegar a rejeitá-la.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental, uma camada de rocha, que resistia ao comércio dos homens. As outras, as camadas de cima, terra solta e areia, levou-lhas a vida, que é um enxurro perpétuo.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Sim, essas camadas de caráter, que a vida altera, conserva ou dissolve, conforme a resistência delas, essas camadas mereceriam um capítulo, que eu não escrevo, por não alongar a narração.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) a veracidade absoluta era incompatível com um estado social adiantado, e que a paz das cidades só se podia obter à custa de embaçadelas recíprocas...”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Ao contemplar o vestido, cobrindo casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta sutil, a saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição necessária ao desenvolvimento da nossa espécie. A nudez habitual, dada a multiplicação das obras e dos cuidados do indivíduo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuário, negaceando a natureza, aguça e atrai as vontades, ativa-as, reprodu-las, e conseguintemente faz andar a civilização.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Vulgar coisa é ir considerar no ermo. O voluptuoso, o esquisito, é insular-se o homem no meio de um mar de gestos e palavras, de nervos e paixões, decretar-se alheado, inacessível, ausente. O mais que podem dizer, quando ele torna a si — isto é, quando torna aos outros — é que baixa do mundo da lua; mas o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cérebro, que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual?”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Se nesse mundo não fosse uma região de espíritos desatentos, era escusado lembrar ao leitor que eu só afirmo certas leis, quando as possuo deveras; em relação a outras restrinjo-me à admissão da probabilidade.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde ao lugar em que o espera a sua dama.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão. Recomendo este gesto às pessoas que não tiverem uma palavra pronta para responder, ou ainda às que recearem encarar a pupila de outros olhos.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Fosse como fosse, tudo estava explicado, mas não perdoado, e menos ainda esquecido.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Meu coração tinha ainda que explorar; não me sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Em verdade, as aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a exceção; eu estava enfarado delas; não sei até se me pungia algum remorso.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Disse-me ele que a frugalidade não era necessária para entender o Humanitismo, e menos ainda praticá-lo; que esta filosofia acomodava-se facilmente com os prazeres da vida, inclusive a mesa, o espetáculo e os amores; e que, ao contrário, a frugalidade podia indicar certa tendência para o ascetismo, o qual era a expressão acabada da tolice humana.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Mas o tempo (e é outro ponto em que eu espero a indulgência dos homens pensadores!), o tempo caleja a sensibilidade, e oblitera a memória das coisas; era de supor que os anos lhe despontassem os espinhos, que a distância dos fatos apagasse os respectivos contornos, que uma sombra de dúvida retrospectiva cobrisse a nudez da realidade; enfim, que a opinião se ocupasse um pouco com outras aventuras.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) é que a opinião é uma boa solda das instituições domésticas.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) mas o eflúvio da manhã quem é que o pediu ao crepúsculo da tarde?”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) se guardares as cartas da juventude, acharás ocasião de 'cantar uma saudade'. Parece que os nossos marujos dão este nome às cantigas de terra, entoadas no alto mar. Como expressão poética, é o que se pode exigir mais triste.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Suporta-se com paciência a cólica do próximo.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Matamos o tempo; o tempo nos enterra.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Um cocheiro filósofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o deficit.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Em suma, poderia dever algumas atenções, mas não devia um real a ninguém.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Que há entre a vida e a morte? Uma curta ponte.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Saltar de um retrato a um epitáfio, pode ser real e comum; o leitor, entretanto, não se refugia no livro, senão para escapar à vida.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Quincas Borba, porém, explicou-me que epidemias eram úteis à espécie, embora desastrosas para uma certa porção de indivíduos; fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o espetáculo, havia uma vantagem de muito peso: a sobrevivência do maior número. Chegou a perguntar-me se, no meio do luto geral, não sentia eu algum secreto encanto em ter escapado às garras da peste; mas esta pergunta era tão insensata, que ficou sem resposta.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Grande coisa é haver recebido do céu uma partícula da sabedoria, o dom de achar as relações das coisas, a faculdade de as comparar e o talento de concluir! Eu tive essa distinção psíquica; eu a agradeço ainda agora no fundo do meu sepulcro.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Amável Formalidade, tu és, sim, o bordão da vida, o bálsamo dos corações, a medianeira entre os homens, o vínculo da terra e do céu; tu enxugas as lágrimas de um pai, tu captas a indulgência de um Profeta. Se a dor adormece, e a consciência se acomoda, a quem, senão a ti, devem esse imenso benefício? A estima que passa de chapéu na cabeça não diz nada à alma; mas a indiferença que corteja deixa-lhe uma deleitosa impressão. A razão é que, ao contrário de uma velha fórmula absurda, não é a letra que mata; a letra dá vida; o espírito é que é objeto de controvérsia, de dúvida, de interpretação, e conseguintemente de luta e de morte.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Cinquenta anos! Não é ainda a invalidez, mas já não é a frescura.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) fica sabendo que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) o chorão, que inclina os seus galhos para a terra, é árvore de cemitério; a palmeira, ereta e firme, é árvore do deserto, das praças e dos jardins.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Há coisas que melhor se dizem calando.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) nem todos os problemas valem cinco minutos de atenção.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) é que o prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado. Que é o benefício? é um ato que faz cessar certa privação do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto é, uma vez cessada a privação, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“Nem o remorso é outra coisa mais do que o trejeito de uma consciência que se vê hedionda.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“De modo que, se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas, mais ou menos efêmeras, como o corpo alimenta os seus parasitas, creio não dizer uma coisa inteiramente absurda.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“E, aliás, gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“A taxa da dor é como a moeda de Vespasiano; não cheira à origem, e tanto se colhe do mal como do bem.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“A única objeção contra a palavra do Quincas Borba é que não me sentia doido, mas não tendo geralmente os doidos outro conceito de si mesmos, tal objeção ficava sem valor.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“(...) ao chegar a este outro lado do mistério; achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”
(Machado de Assis, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)



“É melhor sonhar a vida do que vivê-la, ainda que vivê-la seja ainda sonhá-la.”
(Marcel Proust, no livro “Em Busca do Tempo Perdido”)



“Contempla o rio enorme, vivo, deus líquido, incomparavelmente útil, aproveitável, dadivoso. E tem-lhe inveja. Por que não nasceu peixe, alimento, ou qualquer de belo coisa, pedra até, seja, linda por seu só existir sendo, impensante?”
(Marcos Bagno, no conto “A Experiência”)



“Mas qual o seu rumo? Não tem, verdade eis. E o busca? Inevitável. Quem sabe se aqui, aonde não viria, encontrará um que norteie polo sua alma inquieta, melancolizada por tempestades de mil dúvidas? Quem, se alguém? Sabe? Ninguém sabe.”
(Marcos Bagno, no conto “A Experiência”)



“Ri, franca, como só podem rir as pessoas esquecidas de sofrer.”
(Marcos Bagno, no conto “A Experiência”)



“Também uma cordilheira de torres de igrejas seculares, e para que tantas, se dizem o deus um só?”
(Marcos Bagno, no conto “A Experiência”)



“Dos ondes mais repletos e mais distantes - bússolas sabei-vos vãs! - que se chamam quandos. O tempo.”
(Marcos Bagno, no conto “A Hipérbole Translúcida”)



“(...) que coisa terá chorado tanto de encher um rio todo?”
(Marcos Bagno, no conto “A Hipérbole Translúcida”)



“Aliás (e não acreditou que nisso quase pensava), de que lhe servido tinham todos aqueles anos de reclusão, toda aquela devoção inútil a um passado irretrocessível, se o passado é nem deus? Tornou à cadeira de balanço, curvada pela dor de tal ideia, que lhe aparecia, a um tempo só, blasfêmia contra um amor indescritível, que lhe cabia preservar, e certeza de que lhe arrependia o à solidão haver-se vendida.”
(Marcos Bagno, no conto “A Invenção das Horas”)



“As lembranças de um morto devem morrer também, um radicalismo inédito em sua vida.”
(Marcos Bagno, no conto “A Invenção das Horas”)



“E tentou medir a profundidade de sua tristeza ali agora. Era um abismo.”
(Marcos Bagno, no conto “A Invenção das Horas”)



“Horrorizou-se por haver pensado casa-prisão, mas se repreendeu não.”
(Marcos Bagno, no conto “A Invenção das Horas”)



“Mas um desejo atendido não é trivial milagre quotidiano.”
(Marcos Bagno, no conto “A Invenção das Horas”)



“Por que fora ela devotar-se àquela doentia solidão?”
(Marcos Bagno, no conto “A Invenção das Horas”)



“Bastou, porém, aquela vez em que tentou comunicar-se e os em redor dele todos meninos se riram. É que Manu gagaguejava, lhe a vir as palavras custavam e, quando vinham, eram num arranco só, atropeladas, sem modos. Quem disse que a fala é uma linha só, contínua? A de Manu: novelos embaraçadíssimos, de pontas atadas, que competiam para se verem livres, ganhar o dia pela porta da boca, poucas vezes aberta. Bastou-lhe. Sofreu.”
(Marcos Bagno, no conto “A Via Láctea”)



“No carro, de volta, Manu, carregando os peixinhos com zelo extremoso, deles não tirava os apaixonados mudos olhos. Pensava, contudo, em arapongas. Há de gritar assim porque sofre, presa, achou. Dois dias depois, quase mata a mãe de susto ao lançar ao ar um grito histérico, altíssimo e prolongado, triste de fazer dó. Corre a mãe ao quarto o que é, Manu, pelo amor de Deus? Uiraponga, mãe, eu, também é, sou? e tinha umas lágrimas que não se atreviam além dos olhos.”
(Marcos Bagno, no conto “A Via Láctea”)



“São poucos minutos até que sumam, e o apartamento, grande, se torna imenso de ausências, ausências que Manu aprendeu, sozinho, suportar, ninguém lho pedisse.”
(Marcos Bagno, no conto “A Via Láctea”)



“televisão, caixa de banais mistérios, previsíveis, que amava. Tentou seduzir Manu a que ingressasse ele também naquela paixão pela tela luminosa, desenfreada. O menino, mas, não se deu muito bem com a coisa. Não via assim tanta graça, se conhecia imaginar, concebia, tantas mil vezes muito mais coloridas coisas e lindas de só ver.”
(Marcos Bagno, no conto “A Via Láctea”)



“(...) um amor que não se sabe, como cabe aos amores aliás.”
(Marcos Bagno, no conto “A Via Láctea”)



“Beijaria todas estas pessoas, não fosse um crime, constata. A decisão que ora toma é para a vida.”
(Marcos Bagno, no conto “Contra o Céu não Valem Mãos”)



“Há quem da vida cobre pouco. Viver, o em si, já é que lhes baste: assim, sem projeções, sem nem cálculos para o futuro - inúteis, todos, porque o futuro é um só e, neste sê-lo, nenhum não é, mas a vida.”
(Marcos Bagno, no conto “Contra o Céu não Valem Mãos”)



“Questão sem prumo, sem rumo: nada não serve a nada, tudo se presta a ser, a ser e só, existir - não bastasse?.”
(Marcos Bagno, no conto “Lenda da Pipoca”)



“(...) seu nome? Sem nome, apelativo morto, caprichosamente apagado por Tempo, o deus único e múltiplo dos que quantos são, e são.”
(Marcos Bagno, no conto “Lenda da Pipoca”)



“Soube. Contaram-lhe. Do futuro. Que não havia. Para ele e seus todos, milhares de milhões, incontáveis seus, os da terra própria. O que fizesse? Nada houvesse que. Viveria? Não, mas sobre-.”
(Marcos Bagno, no conto “Lenda da Pipoca”)



“A curiosidade é um fósforo aceso desleixado num bosque: ou bem a gente o apaga quando ainda é fósforo ou bem a gente se esquece do bosque, irremediavelmente incendiado.”
(Marcos Bagno, no conto “Medo, Flor & Solidão”)



“Dormiu, sonhava com ela, sonhos que ocultava de si mesmo, no fingir querer esquecê-los.”
(Marcos Bagno, no conto “Medo, Flor & Solidão”)



“E lhes bastava, que a vida modesta não nos faz mal: riqueza, aliás, luxo, aliás, fartura, aliás... todos pecados merecedores do castigo divino, o único que realmente existia.”
(Marcos Bagno, no conto “Medo, Flor & Solidão”)



“É sempre tão solitário viver?”
(Marcos Bagno, no conto “Medo, Flor & Solidão”)



“Médico, nenhum viesse: curar o estabelecido por Ele - mesmo se possível - seria crime.”
(Marcos Bagno, no conto “Medo, Flor & Solidão”)



“Medrosíssima cresceu. Coisa e culpa da mãe: beata fanática. Criou nos filhos a mais cruel acreditança em Deus: o vingativo, o castiguento, o cobrador. Orava antes da mais pífia ação, da menor das atitudes. Jamais puniu, tocou os filhos: a pena havia de vir, mais cedo ou tarde, certeira e justa, fulminante, das mãos próprias do Senhor. E dizia-o de uma forma tamanha, a fazer acreditar quem mesmo tivesse certeza de Ele nem existir.”
(Marcos Bagno, no conto “Medo, Flor & Solidão”)



“O corpo dilacerado, mas o espírito intacto.”
(Marcos Bagno, no conto “Medo, Flor & Solidão”)



“Porque nada fala, ou quase, dizem-no de bom coração. Sabe-se lá.”
(Marcos Bagno, no conto “Medo, Flor & Solidão”)



“(...) é um deus, um ser-estar que pensa, logo quer. (...) Quereu e quis poder um tanto se apagar, de quando em quando não trabalhar, que trabalho - conto o nosso tradicional - foi o mal único (e mais não precisasse de que já tão grande basta), a maldição e a praga sorte que o deus-Deus rogou ao tudo vivente do universo e do espaço e tempo.”
(Marcos Bagno, no conto “Mitos da Nação Rosarana”)



“(...) fica abolido porque não gosto do barulho que fazeis quando se brotais: a flor vai ser testemunha, mãe e guardiã do silêncio que me precedeu.”
(Marcos Bagno, no conto “Mitos da Nação Rosarana”)



“Ainda crê me Deus? Eu não mais, sabe. Deus, só vale a pena a gente acreditar enquanto vive. Depois, é saber, no após além, o que há e o que não: pôr em ordem a toda acreditança. A própria morte será o quê? Aliás, a vida é? Viver é muito perigoso, viver é um descuido prosseguido? Não. Digo e rerredigo: a vida não há, o que há é um ir à morte. E esta - nonada.”
(Marcos Bagno, no conto “Revereda”)



“As guerras, não há mais de uma: é essa: a de cada um, qual, contra o tempo, imigo mor. E é pena de guerrear essa guerra? Vê que não vale, já perdida des sempre, o momento primeiro de luz vista.”
(Marcos Bagno, no conto “Revereda”)



“Não se espante o senhor. É esperar o seu tempo: fique velho e saberá a sábia lição: tempo é acostumar-se a tudo, a qualquer. Não se espanta? É porque é homem de visão sem viseira, aberto leque, tudo abana.”
(Marcos Bagno, no conto “Revereda”)



“Nem ademais, o tempo nunca careceu de o a gente medir, que ele se sabe todo e inteiro, feito como fosse um rio sem cabeça nem boca, um rio só, transcontino, de eternável rolar. O tempo não seria de ser o próprio, Deus?”
(Marcos Bagno, no conto “Revereda”)



“Travessia - a vida é só uma, toda.”
(Marcos Bagno, no conto “Revereda”)



“E talvez fosse da natureza do amor existir mesmo sem palavra alguma...”
(Marina Colasanti, no conto “Um Amor Sem Palavras”)



“Eu só poderia te dar uma noção do nada se não tivéssemos nascido. Agora é tarde, é muito tarde, minha filha... Ah! Deliciosamente tarde!”
(Mário Quintana, no poema “Aula de Filosofia”)



“Não sou violenta.
Não sou maldosa.
Sou um resultado.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“O sangue escorreu até secar no chão e os cadáveres ficaram presos ali, feito madeira boiando depois da enxurrada.
Estavam colados no chão, até o último deles. Um pacote de almas.
Seria o destino?
O azar?
Foi isso que os grudou assim?
É claro que não.
Não sejam estúpidos.
Provavelmente, teve mais a ver com as bombas atiradas, lançadas por seres humanos escondidos nas nuvens.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Sim, lembro-me dela com frequência e, num de meu vasto sortimento de bolsos, guardei sua história para contar. É uma dentre a pequena legião que carrego, cada qual extraordinária por si só. Cada qual uma tentativa — uma tentativa que é um salto gigantesco — de me provar que você e a sua experiência humana valem a pena.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“E os sacolejos.
Por que eles (os humanos) sempre os sacodem (os que acabaram de morrer)?
É, eu sei, eu sei, imagino que tenha algo a ver com o instinto. Para estancar o fluxo da verdade.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Os empobrecidos sempre tentam continuar andando, como se a relocação ajudasse. Desconhecem a realidade de que uma nova versão do mesmo velho problema estará à sua espera no fim da viagem — aquele parente que a gente evita beijar.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Quando viesse a escrever sua história, ela se perguntaria exatamente quando os livros e as palavras haviam começado a significar não apenas alguma coisa, mas tudo.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Liesel sabia. Mas isso não queria dizer que tinha de aceitar.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Ele já me havia tapeado numa guerra mundial, mas depois seria posto em outra (como uma espécie perversa de recompensa)...”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Para a maioria das pessoas, Hans Hubermann mal chegava a ser visível. Uma pessoa não especial. Com certeza, tinha excelentes habilidades como pintor. Sua habilidade musical era superior à média. Mas, de algum modo, e tenho certeza de que você deve ter conhecido gente assim, ele conseguia parecer simples parte do cenário, mesmo quando estava na frente de uma fila. Vivia apenas por ali, sempre. Indigno de nota. Não importante nem particularmente valioso.
O frustrante nessa aparência, como você pode imaginar, era ela ser completamente enganosa, digamos. Decididamente, havia valor nele, e isso não passou despercebido para Liesel Meminger. (A criança humana — tão mais arguta, às vezes, do que o adulto espantosamente grave!) Ela percebeu de imediato.
O jeito dele.
O ar tranquilo perto dele.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Ela possuía a habilidade singular de irritar quase todas as pessoas que encontrava. Mas realmente amava Liesel Meminger. Seu jeito de demonstrá-lo é que era estranho. Implicava agredi-la com a colher de pau e com as palavras, a intervalos variáveis.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Os Hubermann tinham dois filhos, mas eles eram mais velhos e tinham saído de casa. (...) Os dois logo entrariam na guerra. Uma faria projéteis. O outro os dispararia.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Em algum lugar, bem no fundo, havia uma comichão em seu peito, mas ele fazia questão de não coçar. Tinha medo do que pudesse vazar dela.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“O Sr. Steiner ia conduzindo a bicicleta com uma das mãos e Rudy com a outra. Estava tendo dificuldade era para conduzir a conversa.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Ele era o maluco que se pintara de preto e derrotara o mundo inteiro.
Ela era a roubadora de livros que não tinha palavras.
Mas, acredite, as palavras estavam a caminho e, quando chegassem, Liesel as seguraria nas mãos feito nuvens, e as torceria feito chuva.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“E mostraria a mim, mais uma vez, que uma oportunidade conduz diretamente a outra, assim como o risco leva a mais risco, a vida, a mais vida, e a morte, a mais morte.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Como a maioria dos sofrimentos, esse começou com uma aparente felicidade.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“A voz da mãe era surpreendentemente calma e atenciosa. Como você pode imaginar, isso deixou a menina preocupadíssima. Ela preferia ouvir a mãe e o pai brigando. Adultos aos cochichos dificilmente inspiravam confiança.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“As labaredas cor de laranja acenavam para a multidão, à medida que papel e tinta se dissolviam dentro delas. Palavras em chamas eram arrancadas de suas frases.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Depois disso, ambos se concentraram em respirar, porque não havia mais nada a fazer nem dizer.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Seus olhos não fizeram nada do que o susto normalmente descreve. Nada de fechar bruscamente, nada de pálpebras batendo, nenhum sobressalto. Essas coisas acontecem quando se acorda de um sonho ruim, não quando se acorda dentro dele.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“— Depressa! — gritou Arthur. Sua voz estava muito longe, como se ele a houvesse engolido antes de ela lhe sair da boca.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Como podia aparecer e pedir a pessoas que arriscassem suas vidas por ele? Como podia ser tão egoísta?”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Uma observação pequena porém digna de nota: Ao longo dos anos, vi inúmeros rapazes que pensam estar correndo para outros rapazes. Não estão. Eles correm para mim.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Ele sobreviveu assim: não entrou em combate nesse dia.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Aos poucos, os dois tornaram-se amigos, graças ao fato de que nenhum deles estava terrivelmente interessado em combater. Preferiam enrolar cigarros a se enrolar na neve e na lama. Preferiam lançar dados a lançar projéteis. Uma sólida amizade alicerçou-se no jogo, no fumo e na música, para não falar no desejo comum de sobrevivência.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“— (...) Não se pode casar com um judeu, mas não há lei alguma que proíba lutar com um.
— Provavelmente, há uma lei que recompensa isso... desde que você vença.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“O porão era o único lugar apropriado para ele, no que lhe dizia respeito. Nem pensar em frio e solidão. Ele era judeu e, se havia um lugar em que estava destinado a existir, tratava-se de um porão, ou qualquer outro desses lugares ocultos de sobrevivência.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Imagine sorrir depois de levar um tapa na cara. Agora, imagine fazê-lo vinte e quatro horas por dia.
Era essa a tarefa de esconder um judeu.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“(...) Um rapaz ainda é um menino, e os meninos às vezes têm o direito de ser teimosos.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Vez por outra, ela o observava. Decidiu que a melhor maneira de resumi-lo era como uma imagem de pálida concentração. Pele de tom bege. Um pântano em cada olho. E respirava feito um fugitivo. Desesperado, mas mudo. Só o peito é que o denunciava como um ser vivo.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Quando Max ficava só, sua sensação mais clara era a de estar desaparecendo.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Em primeiro lugar, queremos uma luta boa e limpa — e se dirigiu ao Führer — a menos, é claro, Herr Hitler, que o senhor comece a perder. Caso isso ocorra, estarei perfeitamente disposto a fechar os olhos para qualquer tática inescrupulosa que o senhor queira empregar para triturar na lona esse fedor e imundície judaicos — e baixou a cabeça, com grande cortesia.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Liesel não se incomodava com a comida. (...) Era o livro que ela queria. (...) Não suportaria que ele lhe fosse dado por uma velha solitária e patética. Roubá-lo, por outro lado, parecia um pouco mais aceitável. Roubá-lo, em certo sentido doentio, era como merecê-lo.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Liesel exercia o direito flagrante da pessoa que um dia fez parte de uma família. Está muito bem que essa pessoa resmungue e se lamurie e critique seus familiares, mas não permite que ninguém mais o faça. É nessa hora que você empertiga a coluna e demonstra lealdade.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Na Rua Munique, Rudy avistou Deutscher andando pela calçada com uns amigos e sentiu necessidade de lhe atirar uma pedra. Você pode muito bem perguntar que diabo ele estava pensando. A resposta é: provavelmente, nada. Provavelmente, ele diria que estava exercendo seu direito sagrado à estupidez. Ou isso, ou a simples visão de Franz Deutscher provocou-lhe uma ânsia de se destruir.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Por outro lado, você é um ser humano — deve entender dessa obsessão consigo mesmo.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Dizem que a guerra é a melhor amiga da morte, mas devo oferecer-lhe um ponto de vista diferente a esse respeito. Para mim, a guerra é como aquele velho chefe que espera o impossível. Olha por cima do ombro da gente e repete sem parar a mesma cosia: 'Apronte logo isso, apronte logo isso'. E aí a gente aumenta o trabalho. Faz o que tem que ser feito. Mas o chefe não agradece. Ele pede mais.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Deus.
Sempre pronuncio esse nome, ao pensar naquilo.
(...)
Digo o nome d'Ele na vã tentativa de compreender. 'Mas não é sua função compreender.' Essa sou eu respondendo. Deus nunca diz nada. Você acha que é a única pessoa a quem Ele nunca responde? (...) Sou obrigada a continuar, porque, embora isso não se aplique a todas as pessoas da Terra, é verdade para a vasta maioria: a morte não espera ninguém — e, quando espera, em geral não é por muito tempo.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Fazia vinte e dois meses que Max não via o mundo lá fora.
(...)
— E o que lhe pareceu?
(...)
— Havia estrelas. Elas queimaram meus olhos.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Os rostos sofredores de homens e mulheres esgotados estendiam-se para eles, implorando não tanto ajuda — já haviam ultrapassado essa fase —, mas uma explicação. Apenas alguma coisa que diminuísse aquela perplexidade.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“O que uma pessoa diz e o que acontece costumam ser duas coisas diferentes.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Veio também o reconhecimento de que havia uma grande beleza no que ela estava testemunhando naquele instante, e a menina resolveu não o perturbar.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Conosco, o inimigo não está do outro lado da montanha nem em nenhuma direção específica. Está em toda parte.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Sempre pareço saber o que acontece, quando há neve e armas e as várias confusões da linguagem humana.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Por algum motivo, os homens agonizantes sempre fazem perguntas cujas respostas já sabem. Talvez seja para poderem morrer tendo razão.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Estavam apavorados, não há dúvida, mas não tinham medo de mim. Era o medo de estragarem tudo e terem que se enfrentar novamente, e terem que enfrentar o mundo.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Que foi que dissemos antes? Diga uma coisa um número suficiente de vezes, e você nunca mais a esquece.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Sua alma sentou-se. Veio a meu encontro. As almas desse tipo sempre o fazem — as melhores. As que se levantam e dizem: 'Sei quem você é e estou pronta. Não que eu queira ir, é claro, mas irei'.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Os homens da LSE tentaram segurá-la em seus braços poeirentos, mas a menina que roubava livros conseguiu safar-se. Os humanos desesperados sempre parecem capazes de fazê-lo.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Tive vontade de lhe explicar que constantemente superestimo e subestimo a raça humana — que raras vezes simplesmente a estimo.”
(Markus Zusak, no livro “A Menina Que Roubava Livros”)



“Começava a ter medo dos outros. Aprendia que a nossa solidão nasce da convivência humana.”
(Nelson Rodrigues, no livro “O Óbvio Ululante”)



“Todos estamos deitados na sarjeta, só que alguns estão olhando para as estrelas.”
(Oscar Wilde, no livro “O Leque de Lady Windermere”)



“O cavaleiro era conhecido por sua armadura.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Tão ávido estava, na verdade, que algumas vezes cavalgava em várias direções ao mesmo tempo, o que não é proeza das mais fáceis.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Pouco a pouco, sua família se esqueceu de sua aparência sem a armadura.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Também amava sua armadura, porque ela revelava a todos quem ele era — um cavaleiro bondoso, gentil e amoroso.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“— Estou com um problema.
— Você é um problema, senhor.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Percebeu que a armadura realmente o impedia mesmo de sentir muita coisa, e ele a usava há tanto tempo que tinha esquecido como era a vida sem ela.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Estamos todos presos em algum tipo de armadura. Apenas mais fácil de ver é a sua.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Quando da armadura você se livrar, a dor dos outros também sentirá.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“— Há meses que estou perdido.
— Toda a sua vida — corrigiu o mago (...).
— Não vim de tão longe para ser insultado.
— Quem sabe você sempre tenha considerado a verdade um insulto.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Você é um grande felizardo. Está fraco demais para fugir. (...) Uma pessoa não pode fugir e aprender ao mesmo tempo. Ela precisa permanecer algum tempo no mesmo lugar.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Você é tão medroso (...). É claro, é por isso que veste essa armadura.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Todos os dias, ele fazia a mesma pergunta a Merlin: 'Quando vou sair desta armadura?'. Todos os dias, Merlin respondia: 'Paciência! Faz muito tempo que você a usa. Não dá para se livrar dela da noite para o dia'.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Você não compreende porque tenta compreender com a mente, mas a mente é limitada.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Se você era realmente bondoso, gentil e amoroso, por que precisava provar isso?”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“— Por que você sempre responde com outra pergunta?
— E por que você sempre busca nos outros as respostas às suas perguntas?”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“— Não consigo enxergar muito bem com esta viseira na minha frente.
— Não tenho dúvida disso — replicou o esquilo, sem qualquer ressentimento na voz. — É por isso que você tem de ficar pedindo desculpas às pessoas depois de machucá-las. ”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“— Mas os animais não falam — disse o cavaleiro.
— Oh, com certeza falamos — disse o esquilo. — As pessoas é que não escutam.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Como você pode tomar conta deles se nem consegue tomar conta de si mesmo?”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Um presente, para ser um presente, tem que ser aceito. Caso contrário, torna-se um obstáculo entre as pessoas.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“— Este foi o caminho que você percorreu para chegar a esta floresta.
— Não percorri nenhum caminho — disse o cavaleiro. — Estive perdido durante meses.
— É comum as pessoas não terem consciência do caminho que estão seguindo — replicou Merlin.
— Você quer dizer que este caminho estava aqui, mas eu não conseguia vê-lo?
— Sim.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“A tristeza que ele sentira fora tão profunda que a armadura não pudera protegê-lo dela. Muito pelo contrário, suas lágrimas haviam começado a romper o aço que o circundava.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Quando você aprender a aceitar em vez de ter expectativas, seus desapontamentos serão menores.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“— Ouvi falar que o senhor estava numa cruzada.
— É isso que eu digo sempre que viajo pelo Caminho da Verdade — o rei explicou. — É mais fácil para meus súditos entenderem.
O cavaleiro parecia intrigado.
— Todos entendem as cruzadas — disse o rei —, mas muito poucos entendem a verdade.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“— A maioria de nós está aprisionada no interior de uma armadura — declarou o rei.
— O que o senhor quer dizer? — perguntou o cavaleiro.
— Nós levantamos barreiras para proteger quem pensamos ser. Então um dia ficamos presos atrás das barreiras e não conseguimos mais sair.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Ficar em silêncio significa mais do que não falar.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“A viagem pelo Caminho da Verdade nunca termina. Cada vez que volto aqui encontro novas portas, enquanto minha compreensão se expande.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Ele sentou no chão e continuou a pensar. Logo irrompeu em sua mente que, durante toda a sua vida, perdera tempo falando sobre o que tinha feito e o que iria fazer. Nunca desfrutara o que estava realmente acontecendo.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“— Agora preste atenção — disse o cavaleiro —, vivi todos esses anos sem ouvir uma única palavra sua. Agora que ouço, a primeira coisa que diz é que você é o meu eu verdadeiro. Por que não se manifestou antes?
— Tenho estado por perto há anos — replicou a voz —, mas esta é a primeira vez que você fica quieto o bastante para me escutar.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Nunca mais comeria pombos ou qualquer outra ave ou carne outra vez, porque compreendeu que fazer isso seria literalmente ter amigos no jantar.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“O silêncio é para um; o conhecimento, para todos.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“O pranto do cavaleiro se intensificou quando ele compreendeu que, se não se amava, não poderia realmente amar os outros.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Agradeceu a Merlin por aparecer, mesmo sem ter sido chamado.
— Tudo bem — disse o mago —, às vezes a gente não sabe quando é hora de pedir ajuda.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“O verdadeiro conhecimento não é dividido em compartimentos.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“A ambição do coração é pura. Ela não compete com ninguém nem fere ninguém. De fato, ela o serve de tal maneira que serve os outros ao mesmo tempo.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Você, como a maioria das pessoas, deseja possuir uma porção de coisas boas, mas é necessário separar necessidade de ganância.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“As decisões são simples de tomar, quando não há outra alternativa.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“A simpatia pode enfraquecer o ser humano.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Daquele momento em diante, não mais culparia qualquer pessoa ou qualquer coisa fora dele por seus erros e infortúnios. O reconhecimento de que ele era a causa, não o efeito, lhe deu um novo sentimento de poder. Agora não tinha mais medo.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Quase morri pelas lágrimas que deixei de chorar.”
(Robert Fisher, no livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”)



“Nancy Clutter está sempre apressada, mas tem sempre tempo. E isto é ser uma grande pessoa.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“A Sra. Clutter, mesmo que não estivesse descontraída, possuía uma qualidade repousante como em geral acontece com as pessoas indefesas que não representam ameaça alguma.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“— As coisas pequenas pertencem mesmo à gente (...). Não precisam ser abandonadas. Podem ser levadas numa caixa de sapatos.
— Levadas para onde?
— Para onde quer que você vá, ora essa! Você pode ficar fora muito tempo. (...) Ou então você não volta nunca para casa. E é sempre importante ter com a gente uma coisa só nossa. Uma coisa nossa de verdade.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Mais cento e cinquanta quilômetros e sai-se do 'Cinturão Bíblico', aquela faixa assombrada pelo Evangelho no território norte-americano, na qual um homem deve, nem que seja por negócios, encarar sua religião com a mais séria das caras (...).”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“(...) estava presidindo uma reunião no Clube dos 4-H (4-H significa Head, Heart, Hands, Health. 'Aprendemos a fazer fazendo' é o seu lema. Trata-se de uma organização nacional com filiais em outros países, cujo propósito é ajudar aqueles que habitam as áreas rurais - principalmente as crianças - a desenvolver suas habilidades práticas e seu caráter moral.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“O inesperado acontece. As coisas mudam.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Você é forte, mas tem uma falha e, a não ser que aprenda a controlá-la, a falha acabará mais forte que sua força e o derrotará.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“A liberdade os separara, como homens livres não tinham mais nada em comum.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Quando os homens do imposto de renda aparecem, os canhotos dos cheques são nossos melhores amigos.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“A sensação que um homem tem colocando sua vida no seguro não é muito diferente da que tem alguém assinando o testamento. Pensar na morte era comum.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“O Sr. Cuttler talvez fosse muito severo em certas coisas (religião, etc.), mas nunca fazia a gente se sentir errada e ele certo.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Certa vez, a Sra. Riggs, professora de inglês, devolvera um tema com o seguinte comentário: 'Bom. Mas por que três estilos diferentes de letra?'. Nancy respondera: 'Porque ainda não sou crescida o bastante para ser uma pessoa com uma só assinatura'.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Que diferença faz? Para a eternidade, tanto faz. Lembre-se: se um pássaro carregasse todos os grãos de areia de uma praia, um por um, através do oceano, quando tivesse levado todos para o outro lado, não teria passado nem um minuto da eternidade.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Mas quem odiava os Clutter? Nunca ouvi uma palavra contra eles. Eram populares à beça e se uma coisa dessas acontece com eles, quem está a salvo?”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Eu disse ao meu gerente que estava com o cheque do pagamento do seguro, mas ainda não tinha descontado e perguntei o que me aconselhava. Bem, era uma situação delicada. Parece que legalmente nós não teríamos de pagar a indenização. Mas moralmente isso era outro assunto. Claro que nos decidimos pela solução moral.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Caíra de cara em cima da cama, como se o sono fosse uma arma que o houvesse atacado por trás.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“É doloroso para nós, é doloroso para eles. Quando se trata de um crime, não se pode respeitar a dor. Ou a reserva de cada um. Ou sentimentos pessoais. Temos de fazer perguntas. Algumas doem fundo.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Resumindo, Nye soube apenas isto: de todas as pessoas no mundo, os Clutter eram as menos prováveis de serem assassinadas”.
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“A imaginação, é claro, abre qualquer porta: dê a volta à chave e deixe entrar o terror.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“As coisas não iriam tão longe se não tivesse sido com os Clutter mas com outros que não fossem tão respeitados, prósperos e seguros. Mas aquela família representava por aqui tudo a que as pessoas dão valor e respeitam, e uma coisa dessas acontecer com eles - é como ouvir dizer que Deus não existe.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“A tranquilidade de seu tom sublimava a malícia da resposta.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“— (...) A respeito dessa história de pressentimento. Me diz uma coisa: se você tinha tanta certeza de que ia se arrebentar, por que não parou? Não teria acontecido se você não estivesse na moto, certo?
Era um enigma que Perry já tentara desvendar. Pensava que tinha resolvido, mas a solução, embora simples, era algo obscura.
— Não. Uma vez que uma coisa está predeterminada, você só pode é torcer para que não aconteça. Ou que aconteça, depende. Enquanto você viver, haverá sempre algo esperando e, mesmo que seja ruim e você saiba que é ruim, o que é que você vai fazer? Você não pode parar de viver. Feito aquele sonho que eu tenho. Desde garoto que tenho o mesmo sonho. (...) Estou andando entre as árvores em direção a uma árvore isolada. (...) Tem folhas azuis e diamantes pendurados em tudo quanto é galho. (...) Para isso estou lá: para apanhar um cesto de diamantes. Mas eu sei que no instante em que eu tentar, no minuto em que eu estender a mão, uma cobra vai cair em cima de mim. Uma cobra que toma conta da árvore. (...) Isso eu já sei de antemão, entende? E eu não sei lutar com cobras. Mas eu penso assim: vou me arriscar. Enfim, eu tenho mais cobiça dos diamantes do que medo da cobra.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“De qualquer modo, não me interessa quem fez aquilo. Não vem ao caso. Minha amiga partiu. Saber quem a matou não a trará de volta.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Invejava o fato de Dick ter-se casado duas vezes e ser pai de três filhos. Esposa, filhos: experiências 'que um homem deveria ter', mesmo que 'não o fizessem bem', conforme acontecia com Dick.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Tudo isso somado dá uma conta redonda: zero.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Jesus nunca nos prometeu que jamais sofreremos dor ou angústia, mas disse-nos que estaria sempre presente para nos ajudar a suportar a dor e o sofrimento.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Há muito ressentimento nesta comunidade. (...) Cheguei mesmo a escutar, em mais de uma ocasião, que o homem, quando encontrado, deveria ser enforcado na árvore mais próxima. Não pensemos assim. O fato está consumado e tirar mais uma vida não o alterará. Vamos ao invés perdoar, como Deus gostaria que fizéssemos. É errado acalentarmos a ira em nossos corações.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“— (...) Deve haver alguma coisa de errado com a gente. Pra fazer o que fizemos. (...)
— (...) Eu sou normal - e Dick falava a sério. Achava-se um sujeito equilibrado. Tanto como qualquer outro, talvez apenas um pouco mais esperto que os demais.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Quando Perry disse: 'Deve haver alguma coisa de errado com a gente', admitia algo que 'odiava ter de admitir'. Afinal, 'era doloroso imaginar que não se é normal' - particularmente se a 'coisa errada' não fosse culpa da 'gente', mas 'uma coisa nascida com a gente'.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Nossos fregueses gostam daqui. Têm de gostar. Não há outro lugar.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Sua malícia, malícia meio divertida de bebê, sugeria uma espécie de cupido maligno atirando flechas envenenadas.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Quando eu era menina (...), tinha tanta certeza de que as árvores e as flores eram como os pássaros e as pessoas. Que pensavam coisas e conversavam umas com as outras. E que se a gente tentasse conseguiria escutá-las. Era apenas uma questão de tirar da cabeça todos os outros sons. Ficar bem quieta e escutar com atenção. Às vezes ainda acredito nisso. Mas nunca se consegue esse silêncio...”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Todos nós temos a liberdade de falar e fazer aquilo que desejamos - contanto que esta 'liberdade' de palavra e ação não prejudique os nossos semelhantes.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Poucas pessoas podem demonstrar um princípio de ética comum quando sua deliberação é inflamada de emoções.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Há uma considerável hipocrisia nas convenções. Qualquer pessoa que pensa conhece o paradoxo. Mas ao lidar com pessoas convencionais é sempre vantajoso tratá-las como se não fossem hipócritas. Não se trata de infidelidade aos próprios conceitos. Trata-se de uma concessão para que se possa continuar a ser um índivíduo livre da ameaça constante das pressões convencionais.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Nada mais fácil do que compartilhar nossos fracassos com os outros, da mesma maneira que é comum esquecer os que colaboraram para nossas vitórias.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“A inveja não o deixava nunca. O inimigo era todo aquele que fosse 'alguém' que ele queria ser ou que possuísse 'algo' que ele quisesse.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Perry O'Pearsons morrera sem ter vivido.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Depois de um mês, a amizade entre o namorado e a melhor amiga da vítima esfriou. (...) O mal estava em que ambos se esforçavam a lamentar e lembrar aquilo que, na realidade, queriam esquecer.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Conversa de presidiário não é prova de nada. Prova é pegada, impressão digital, testemunha, confissão.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Eu entendo de inferno. Já estive lá. Talvez exista o céu também. Uma porção de gente rica acredita nele.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Os ricos nunca são enforcados. Só os pobres e sem amigos.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Os soldados não sofrem de insônia. Matam e ganham medalhas por terem matado. Este bom povo do Kansas quer me matar (condenando à pena de morte) - e algum carrasco terá prazer em executar o trabalho. É fácil matar - bem mais fácil que passar um cheque sem fundos.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“(...) a exposição da criança a estímulos esmagadores, antes que os possa controlar, está intimamente ligada a defeitos precoces na formação do ego e, mais tarde, a graves perturbações no controle dos impulsos.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“(...) o sistema de apelos que invade a jurisprudência norte-americana é quase uma roleta - um jogo de azar agindo, de certa forma, a favor do criminoso.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”)



“Que é que se pode dizer da pena de morte? Não sou contra. É vingança só, mas não há nada errado com a vingança. É muito importante. Se eu fosse parente de alguma vítima, não ficaria em paz até que os responsáveis tivessem morrido. (...) Eu acredito na forca. Contanto que não seja eu o enforcado.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”, reproduzindo trecho de entrevista de um condenado à morte por enforcamento.)



“Só queria dizer que não guardo rancores. Vocês estão me mandando para um mundo bem melhor do que este.”
(Truman Capote, no livro “A Sangue Frio”, reproduzindo a última declaração de um condenado à morte antes de ser enforcado.)



“A confiança é o pior inimigo dos mortais.”
(William Shakespeare, na peça “Macbeth”)



“Estou resolvido! Vou esticar todos os músculos de meu ser para esta terrível façanha. Vamos e sejam apresentadas aos olhos do mundo as belas aparências... Um rosto falso deve esconder o que sabe um falso coração.”
(William Shakespeare, na peça “Macbeth”)



“Potências misericordiosas, refreai em mim os pensamentos malditos aos quais a Natureza dá passagem durante o sono!”
(William Shakespeare, na peça “Macbeth”)