TRECHOS DE POEMAS







“Não tenhas medo das palavras grandes, pois se referem a pequenas coisas.
Para o que é grande os nomes são pequenos:
assim a vida e a morte, a paz e a guerra, a noite, o dia, a fé, o amor e o lar.
Aprende a usar, com grandeza, as palavras pequenas.
Verás como é difícil fazê-lo, mas conseguirás dizer o que queres dizer.
Entretanto, quando não souberes o que queres dizer,
usa palavras grandes, que geralmente servem para enganar os pequenos.”
(Arthur Kudner)







“Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe, o vento vai falando em mim.

E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.”
(Cecília Meireles, no poema “4° Motivo da Rosa”)







“É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.

É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.

Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.”
(Cecília Meireles, no poema “Aceitação”)







“Tão grande, o mundo!
Tão curta, a vida!”
(Cecília Meireles, no poema “Adeuses”)







“Aqui está minha vida — esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui está minha voz — esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está minha dor — este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança — este mar solitário,
que de um lado era o amor e, do outro, esquecimento.”
(Cecília Meireles, no poema “Apresentação”)







“Vem ver as cascas das conchas
nas praias que as vão reduzindo a areia!

Oficina do vagaroso tempo...

Vem ver os pedaços dos mastros
boiando pela última vez na violenta vaga!

Oficina da rápida tormenta...

Vem ver teu lenço rasgar-se entre o sol e o vento
dos seculares adeuses!

Oficina exata da vida...

Vem ver os rostos e as nuvens desmanchadas
entre dunas e lágrimas invencíveis.

Alta oficina das estrelas!”
(Cecília Meireles, no poema “Astrologia”)







“Ainda que sendo tarde e em vão,
perguntarei por que motivo
tudo quanto eu quis de mais vivo
tinha por cima escrito: 'N ã o'.”
(Cecília Meireles, no poema “A Última Cantiga”)







“Não permaneço.
Cada momento
é meu e alheio.”
(Cecília Meireles, no poema “Auto-Retrato”)







“E até sem barco navega
quem para o mar foi fadada.

Deus te proteja, Cecília,
que tudo é mar — e mais nada.”
(Cecília Meireles, no poema “Beira-Mar”)







“Escreverás meu nome com todas as letras
com todas as datas
— e não serei eu.

Repetirás o que me ouviste,
o que leste de mim, e mostrarás meu retrato
— e nada disso serei eu.

Dirás coisas imaginárias,
invenções sutis, engenhosas teorias
— e continuarei ausente.

Somos uma difícil unidade,
de muitos instantes mínimos
— isso seria eu.

Mil fragmentos somos, em jogo misterioso,
aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente.
— Como me poderão encontrar?

Novos e antigos todos os dias,
transparentes e opacos, segundo o giro da luz
— nós mesmos nos procuramos.

E por entre as circunstâncias fluímos,
leves e livres como a cascata pelas pedras.
— Que mortal nos poderia prender?”
(Cecília Meireles, no poema “Biografia”)







“Não sou a das águas vista
nem a dos homens amada;
nem a que sonhava o artista
em cujas mãos fui formada.
Talvez em pensar que exista
vá sendo eu mesma enganada.

Quando o tempo em seu abraço
quebra meu corpo, e tem pena,
quanto mais me despedaço,
mais fico inteira e serena.
Por meu dom, divino faço
tudo a que Deus me condena.

Da virtude de estar quieta
compondo o meu movimento.
Por indireta e direta,
perturbo estrelas e vento.
Sou a passagem da seta
e a seta, — em cada momento.”
(Cecília Meireles, no poema “Canção”)







“Alta noite, lua quieta, muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... — enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar — somente.
Não necessita de nada.”
(Cecília Meireles, no poema “Canção de Alta Noite”)







“(Isto são coisas que digo, que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo
é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)”
(Cecília Meireles, no poema “Canção do Caminho”)







“Ando à procura de espaço para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já uma distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
— saudosa do que não faço
— do que faço, arrependida.”
(Cecília Meireles, no poema “Canção Excêntrica”)







“Certamente, não há nada de ti, sobre este horizonte,
desde que ficaste ausente.

Mas é isso o que me mata:
sentir que estás não sei onde,
mas sempre na minha frente.”
(Cecília Meireles, no poema “Canções do Mundo Acabado”)







“Não acredites em tudo que disser a minha boca
sempre que te fale ou cante.

Quando não parece, é muito,
quando é muito, é muito pouco,
e depois nunca é bastante...

(...)

A mim não fizeste rir
e nunca viste chorar.

(Porque o tempo sempre foi
longo para me esqueceres
e curto para te amar.)”
(Cecília Meireles, no poema “Canções do Mundo Acabado”)







“Não queiras ter Pátria.
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços do mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
Que as coisas todas serão tuas.”
(Cecília Meireles, no poema “Cântico”)







“Como os poetas que já cantaram,
e que já ninguém mais escuta,
eu sou também a sombra vaga
de alguma interminável música!”
(Cecília Meireles, no poema “Comunicação”)







“Conheço a residência da dor.
É num lugar afastado,
sem vizinhos, sem conversa, quase sem lágrimas,
com umas imensas vigílias, diante do céu.

A dor não tem nome,
não se chama, não atende.
Ela mesma é solidão:
nada mostra, nada pede, não precisa.
Vem quando quer.

O rosto da dor está voltado sobre um espelho,
mas não é rosto de corpo,
nem o seu espelho é do mundo.

Conheço pessoalmente a dor.
A sua residência, longe,
em caminhos inesperados.

Às vezes sento-me à sua porta, na sombra das suas árvores.
E ouço dizer:
'Quem visse, como vês, a dor, já não sofria.'
E olho para ela, imensamente.
Conheço há muito tempo a dor.
Conheço-a de perto.
Pessoalmente.”
(Cecília Meireles, no poema “Conheço a Residência da Dor”)







“Não acuso. Nem perdoo.
Nada sei. De nada.
Contemplo.

(...)

Como hei de acusar ou perdoar?
Nada sei.
Contemplo.

(...)

Não acuso nem perdoo.
Que faremos, errantes entre as invenções dos deuses?”
(Cecília Meireles, no poema “Contemplação”)







“Há um gesto acorrentado e uma voz sem coragem,
e um amor que não sabe onde é que anda o seu dia.”
(Cecília Meireles, no poema “Descrição”)







“Porque há doçura e beleza
na amargura atravessada,
e eu quero a memória acesa
depois da angústia apagada.”
(Cecília Meireles, no poema “Desejo de Regresso”)







“Que procuras? — Tudo. Que desejas? — Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.”
(Cecília Meireles, no poema “Despedida”)







“E perguntei ao pássaro: 'Onde estavas
para me perguntares tudo isso?
Também já viveste tanto?'

E ele me respondeu: 'Não, tudo isso está no fundo dos teus olhos.
Eu só vou perguntando o que estou lendo...
E, porque o leio, canto.'”
(Cecília Meireles, no poema “Diálogos do Jardim”)







“Manejava o arco
de tal maneira suave e exata
que era belo ser vítima.”
(Cecília Meireles, no poema “Diana”)







“Não é preciso que me visitem, se estiver doente,
embora o convívio dos amigos seja, comumente, agradável.

Não é preciso que exclamem, por estar morta: 'Coitada!' 'Que pena!',
embora seja esse o uso normal, na terrena vida.

Não é preciso trazerem flores, embora o mundo
das flores seja como o dos mortos, profundo e belo.

Não é preciso vestirem luto, — nem isso a mais ninguém ocorre...
— embora ajudasse a apagar quem morre, com mais sombra.

Não é preciso rezar ofícios, embora a minha sorte
fosse esta de só pensar no que separa morte e vida.

Não é preciso nenhuma notícia ou comentário avulso,
embora eu sentisse o mundo bater no meu pulso, tão forte.

Principalmente, é preciso que ninguém chore nem me recorde com tristeza,
porque seria absurdo, contra a natureza das coisas:

Os mortos não querem nada, no seu reino grande e frio,
e estão livres de convenções, e nada vale o amor tardio.
O amor enfim.”
(Cecília Meireles, no poema “Disposições Finais”)







“Sempre que me vou embora
é com silêncio maior.
As solidões deste mundo
conheço-as todas de cor.”
(Cecília Meireles, no poema “Em Voz Baixa”)







“A tua raça de aventura quis ter a terra, o céu, o mar.

Na minha, há uma delícia obscura
em não querer, em não ganhar...

A tua raça quer partir,
guerrear, sofrer, vencer, voltar.

A minha, não quer ir nem vir.
A minha raça quer passar.”
(Cecília Meireles, no poema “Epigrama n° 7”)







“O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos nossos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.”
(Cecília Meireles, no poema “É Preciso Não Esquecer Nada”)







“Até morrer estarei enamorada
de coisas impossíveis”
(Cecília Meireles, no poema “Eternidade Inútil”)







“Das tuas águas tão verdes
nunca mais me esquecerei.
Meus lábios mortos de sede
para as ondas inclinei.
Romperam-se em teus rochedos:
só bebi do que chorei.

(...)

Dos teus horizontes quietos
nunca mais me esquecerei.
Por longe que ande, estou perto.
Toda em ti me encontrarei.
Foste o campo mais funesto
por onde me dissipei.

(...)

Como um náufrago entre os salvos,
meu coração se volvia.

(...)

Não rogava. Não chorava.
Unicamente morria.”
(Cecília Meireles, no poema “Exílio”)







“Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem para quê.”
(Cecília Meireles, no poema “Humildade”)







“É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança, em cada lugar.

(...)

Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar.”
(Cecília Meireles, no poema “Inscrição”)







“É tão profundo, o campo, que ninguém chega a ver que é triste.”
(Cecília Meireles, no poema “Lembrança Rural”)







“Murmuro para mim mesma:
'É tudo imaginação!'

Mas sei que tudo é memória...”
(Cecília Meireles, no poema “Memória”)







“Teu bom pensamento longínquo me emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim, e me entendeste profundamente.

Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.”
(Cecília Meireles, no poema “Mensagem a um Desconhecido”)







“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.”
(Cecília Meireles, no poema “Motivo”)







“Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.”
(Cecília Meireles, no poema “Noções”)







“Por onde
é o deserto?
Às vezes,
responde,
de perto,
de longe.
Mas depois
se esconde.
Somos um
ou dois?
Às vezes,
nenhum.
E em seguida,
tantos!
A vida
transborda
por todos
os cantos.”
(Cecília Meireles, no poema “Noite”)







“Se algum de nós avistasse o que seríamos com o tempo,
todos nós choraríamos, de mútua pena e susto imenso.”
(Cecília Meireles, no poema “O Tempo no Jardim”)







“Ali no meio do mundo,
toda para o céu voltada,
única fonte na areia,
sozinha, a mulher chorava.

Talvez perguntasse aos santos:
'Por que se morre?' e sentisse
que do céu lhe perguntavam
também: 'Para que se vive?'”
(Cecília Meireles, no poema “Paisagem Mexicana”)







“Ah, na insônia feliz é que as ausências se aproximam,
nos corredores da memória, hesitantes em cada porta.”
(Cecília Meireles, no poema “Profundidade da Insônia”)







“Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?”
(Cecília Meireles, no poema “Retrato”)







“Por um momento, o universo, a vida
podem ser apenas este pequeno som
enigmático

entre a noite imóvel
e o nosso ouvido.”
(Cecília Meireles, no poema “Som da Índia”)






“Gosto de pássaros
que se enamoram das estrelas
e caem de cansaço
ao voarem
em busca da luz...”
(D. Hélder Câmara)






“Primeiro, disseram que não haveria mais guerrilhas.
Acreditei e, com as botas, abandonei sonhos revolucionários.
Em seguida, disseram que terminara a luta armada.
Tornei-me pois violento pacifista.
Depois, disseram que a esquerda falira,
E fechei os olhos ao olhar dos pobres.
Enfim, disseram que o socialismo morrera,
E que uma palavra basta: democracia.
Então nasceu em mim
A liberdade de ser burguês.
Sem culpa.”
(Frei Betto, no poema “Sequestro da Linguagem”)







“De vuestros ojos centellas,
Que encienden pechos de hielo,
Suben por el aire al cielo,
Y en llegando son estrellas.”
(Luís de Camões)







“Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?”
(Mário Quintana, no poema “Inscrição Para Uma Lareira”)







“Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)”
(Manuel Bandeira, no livro “Teresa”)







“Pois dentro e fora, acima, em torno, embaixo,
Tudo é apenas um jogo de Sombra Mágica
Executado numa Caixa cuja Vela é o Sol,
Em torno do qual giramos nós, Figuras Fantasmas.”
(Omar Khayyám, no poema “O Rubáiyát”)







“O firmamento e todas as coisas abaixo dele,
A Terra e suas criaturas,
Tudo muda,
E nós, parte da criação,
Também temos de sofrer mudanças.”
(Ovídio)







“não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino.”
(Paulo Leminski, no poema “Não Discuto”)







“Somos feitos
Do mesmo material que os sonhos,
E nossa curta vida
Acaba com um sono.”
(William Shakespeare)







“De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.”
(William Shakespeare, no poema “Soneto”)